Brasil Energia | Ed. 462 - Abril, 2020
ENTREVISTA Clarissa Lins e Adyr Tourinho 56 Brasil Energia , nº 462, 30 de abril de 2020 bopd. A produção mundial estava em 100 milhões de bopd. A estimativa da Agência Internacional de Energia é que a redução de demanda chegue a 30%. Quando a mobilidade retornar, a demanda reprimi- da vai voltar; trata-se de um pico anormal. Mas, ain- da assim, há uma situação que é real no mundo, de oferta maior que a demanda. Com relação a preço, como é uma questão que não controlamos, não nos prendemos muito nisso. CL – O efeito do acordo da OPEP+ ainda não chegou ao mercado, o que faz com que os preços se mantenham deprimidos porque não há nem a perspectiva do padrão da retomada da demanda, nem o benefício da redução da oferta. Além dis- so, há o “efeito preço”: a demanda está inelástica, tão flat que não reage mais a preços. Dada a fragi- lidade da economia global e as consequências em termos de interrupção de atividades, quebradei- ra de empresas, falta de acesso à credito e de li- quidez, não apostamos, hoje, em preços robustos nos próximos dois anos. Se vai ser US$ 20/barril, US$ 30/barril, US$ 40/barril, não sabemos. Ago- ra, não há quem preveja preços acima de US$ 50/ barril neste biênio. A grande lição é saber como se preparar e como operar neste ambiente de preços muito deprimidos. Qual será o impacto dos cortes no Brasil? AT – Empresas que têm projetos onde o break even exige preço de barril mais elevado, como ativos do pós-sal e de revitalização de campos, vão encon- trar grande dificuldade de viabilizar a implementa- ção de seus planos de investimentos e mesmo de so- breviver durante a crise. Os projetos de pré-sal têm grande probabilidade de seguir; talvez possam ser postergados um pouco, mas vão acontecer. O pro- blema é que, no curto prazo, a indústria de bens e serviços ganharia fôlego justamente com os proje- tos que serão mais afetados pela redução do preço do barril, como os sistemas de pós-sal, revitalização e desinvestimento da Petrobras. CL – Temos feito monitoramento contínuo do anúncio das reduções de capex e opex das grandes operadoras globalmente e, em média, os cortes tem sido de 30%, incluindo a Petrobras. Na nossa visão, esses cortes de 30% são os primeiros, refletindo a queda do barril para US$ 35. Se o barril ficar em US$ 20/ US$ 25 e a retomada global seguir um padrão “U”, poderemos ver mais cortes pela frente. É um ce- nário de grande preocupação. É claro, que cada em- presa tem seu próprio portfólio e vai se debruçar so- bre isso, analisando suas obrigações. Como a Abespetro e o IBP enxergam e trabalham a reto- mada das atividades? CL – O primeiro foco é aumentar nossa capaci- dade de testagem. A retomada só pode se dar pre- servando a saúde dos colaboradores e aumentando, portanto, a capacidade de testagem da indústria e re- duzindo as incertezas sobre populações contagiadas interagindo com populações não contagiadas. Esse é um posicionamento de consenso da indústria? CL – Diria que sim. O que estamos fazendo ago- ra é trabalhar em um protocolo de normas que pos- sam ser compartilhadas entre as empresas, justa- mente no que diz respeito à testagem para volta e continuidade do trabalho, com segurança neces- sária. Criamos um subcomitê dentro do comitê de crise, que está com ênfase nesse tópico. Além disso, temos empresas que atuam em outros países que já preparam sua retomada e que estão compartilhan- do práticas sanitárias e de proteção individual para os escritórios. AT – Empresas como a Baker Hughes, na qual trabalho, estão retomando as atividades em alguns países. Existem protocolos que teremos de adaptar para realidade do Brasil, mas isso está bem enca- minhado. [Desde a última crise], as operadoras ti- veram recuperação de margens e de rentabilidade, mas a realidade é que as empresas de bens e serviços ainda sofrem bastante com margens extremamente comprimidas. Na Abespetro, nossa preocupação é que a solução natural de uma crise econômica tende a ser “vamos apertar a cadeia de fornecedores”, mas, hoje, não temos mais esse espaço que havia no pas- sado. As operadoras vão ter dificuldade com o atual preço de petróleo, mas não adianta querer resolver passando a conta só para o setor de bens e serviços. Será preciso diálogo, uma conversa muito forte por- que, sem a cadeia de bens e serviços, as operadoras também não sobrevivem. Vamos ter que encontrar, juntos, uma solução. Não dá para um passar o pro- blema para o outro.
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