Brasil Energia | Ed. 462 - Abril, 2020
ENTREVISTA Clarissa Lins e Adyr Tourinho 58 Brasil Energia , nº 462, 30 de abril de 2020 O IBP e a Abespetro têm alguma ação junto ao gover- no para garantir linhas de crédito para pequenas e médias empresas operadoras e fornecedoras? AT –Essa é uma das prioridades da Abespetro. Muito provavelmente, vamos sair com um grupo de trabalho para tratar especificamente sobre a questão da retomada, com ações concretas que iremos pro- por para diminuir o impacto econômico nas empre- sas de bens e serviços. E, com as operadoras, de novo, será preciso ter diálogo porque, se passarem a conta para as empresas de serviços, muitas não sobrevive- rão. E não vou dizer que serão somente as pequenas e as médias. Algumas grandes poderão repensar seu posicionamento no país porque são globais e ava- liarão onde terão retorno mais atraente, e é isso que queremos evitar. CL – O IBP tem por princípio não se envol- ver em questões comerciais entre diferentes elos da cadeia de valor. Sobre a retomada, onde te- mos uma participação ativa, é absolutamente fundamental a manutenção de um ambiente de negócios estável, previsível e competitivo. Toda a nossa abordagem junto ao governo não é via linha de crédito, mas em relação ao nosso ve- lho mantra de que temos que manter as regras existentes para posicionar o Brasil, em âmbito global, em posição competitiva e atraente pa- ra os investimentos. Nesse contexto, voltamos a pedir que os avanços obtidos nos últimos anos não sofram retrocesso e que, na medida do pos- sível, possamos avançar mais em agendas-macro que confiram ainda mais competitividade, como adotar o regime único de concessão. A sucessão de crises políticas que o país vive em meio à pandemia e a queda do preço do barril eleva o Risco-Brasil? CL – O Risco-Brasil está precificado, alto e crescen- do. Os ruídos políticos acabam interferindo na imagem do Brasil como sendo um local seguro e previsível para fazer negócio. AT – Somos uma indústria de longo prazo. Quando uma operadora faz um investimento em um projeto no pré-sal, está fazendo uma projeção de 20 a 30 anos, então a variável mais relevante é a credibilidade em honrar os contratos. Há uma pre- cificação de Risco-Brasil, mas também uma con- fiança de que o país seguirá honrando contratos, e, nesse ponto, Abespetro e IBP têm um posiciona- mento muito parecido. A crise impor á transformações à indústria de óleo e gás? CL – Os comportamentos vão mudar. Nossa ca- pacidade de entender melhor até que ponto somos resilientes, respeitar a ciência e apostar mais em co- laboração e cooperação como sociedade e indústria. Entendo que o foco é saúde e que teremos de encon- trar formas de nos adaptarmos a um “novo normal” que ainda não sabemos como será. AT – Definitivamente, a transformação digital, que sempre foi um tabu na nossa indústria, está acontecendo. Clientes que, antes, não deixavam os dados de perfuração saírem de suas redes, muda- ram totalmente. Se não fosse dessa maneira dis- ruptiva, talvez demorássemos mais duas décadas. Isso aconteceu no prazo de um mês, e acho que vai ficar. Haverá uma aceleração exponencial na transformação digital. A tecnologia está trazendo benefícios e eficiências que não experimentamos antes desta crise. O futuro do petróleo persiste? CL – Até onde a economia precisar de densidade energética, do jeito que precisamos, sim. n “As operadoras vão ter dificuldade com o atual preço de petróleo, mas não adianta querer resolver passando a conta só para o setor de bens e serviços. Será preciso diálogo” (Adyr Tourinho)
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