Brasil Energia | Ed. 462 - Abril, 2020

Brasil Energia , nº 462, 30 de abril de 2020 59 Wagner Granja Victer Wagner Granja Victer é engenheiro, bacharel em Administração, pós-graduado em Finanças e Gerência de Projetos. Atualmente é diretor da Assembléia Legislativa do RJ Historicamente, após grandes acidentes e crises, são re- tirados ensinamentos como forma de sobrevivência e aper- feiçoamento para as ações do futuro. No caso da Pandemia do Coronavírus, essas lições já estão se tornando claras pa- ra a cultura organizacional, o aprendizado e orientação dos diversos segmentos empresariais e seus dirigentes. Dentre esses segmentos, a indústria do Petróleo e Gás, já se destaca como uma das mais impactadas em função da pandemia, pois já vinha bastante abalada desde o começo dos conflitos geopolíticos envolvendo os Países Árabes e a Rússia, e, com esse choque, certamente deverá sofrer signi- ficativos ajustes em sua estrutura. Alémdisso, os impactos atingem em cheio uma série de indústrias dependentes do petróleo que, somado a compe- tidores como os produtores de shale gas , terão de rever toda a maneira como operam em um universo em que o barril de petróleo cai a uma fração do valor praticado no passado. Da mesma forma as chamadas energias alternativas serão impactadas em especial na redução de velocidade do cres- cimento visto nos últimos anos. Os movimentos econômicos que futuramente se des- dobrarem no mundo dependem de diversas variáveis que precisam de forma única e inesperada, serem reconheci- das simultaneamente, como: redução do preço do barril para valores inferiores a US$ 25, redução drástica da ati- vidade econômica e consequentemente da demanda de petróleo e derivados, a redução e a reprogramação de in- vestimentos, aumento de cotação do dólar, etc. Tratando de países como o Brasil, esse é um cenário extremamen- te complexo para qualquer tentativa de projetar o futuro, dado que há menos de 6 meses era praticamente imprevi- sível em sua dimensão, inclusive para governos estaduais e municipais que temos royalties e participações como fon- tes relevantes de suas receitas. Da mesma forma, o mercado de navios petroleiros tornou-se fortemente afetado, pressionado por essa abun- dante oferta de óleo barato. Alguns traders estão buscan- do estocagem estratégica e meios para levar esse óleo ba- rato para os mercados demandantes e os fretes maríti- mos voltam a ser relevantes ao preço final e, portanto, de novo,uma questão estratégica. A imprevisibilidade do mundo afeta bastante a indús- tria de energia, e se desdobra também pelos diversos seg- mentos de outras cadeias produtivas prestadoras de servi- ços, alguns podendo ter interrupções súbitas e de longa du- ração, como o setor da aviação e o hoteleiro. O fato é que impactos drásticos nas operações a partir de ocorrências como essa, e como a que também ocorreu no Brasil em2018 durante a Greve dos Caminhoneiros, de- verão estar cada vez mais presentes nos cenários dos Plane- jamentos Estratégicos das Organizações, que durante déca- das pouco consideravama possibilidade desses cenários ca- óticos, e onde as precauções concretas demitigação dos im- pactos desses cenários não tinhamqualquer grau de priori- dade empresarial e se tornavammeras peças de ficção para muitos gestores e acionistas. Como aprendizado primário, ações concretas e anteci- padas nas operações em especial das contingências e o uso de novas tecnologias, como por exemplo o“trabalho remo- to”, e as logísticas alternativas de abastecimento de matérias primas e do escoamento da produção, que se projetavam apenas em um cenário normal, começam a ser sensibiliza- das como sendo variáveis prováveis e até da sobrevivência das organizações e logicamente tendem a ser aperfeiçoadas e utilizadas emum período pós crise. Os valores empresariais também precisarão ser modi- ficados com uma grande discussão, que redefinirá as rela- ções das organizações com seus colaboradores e fornece- dores, que tenderão a se basear também em um processo de solidariedade mútua para começara construir essas no- vas relações. Aliás, muitas organizações de diversos tama- nhos começaram a finalmente desenvolver, somente diante da seriedade dessa crise,ações efetivas, como de fato tentar ajudar a proteger a sociedade, ampliando o seu conceito de Responsabilidade Social quemuitas vezes sucumbia, no dia a dia, na busca incessante dos resultados financeiros e o tra- dicional ebitda. Certamente teremos uma economia bastante abalada com essa gravíssima crise, mas o remédio que irá nos curar, ou pelomenos garantir nossa sobrevivência,terá como efeito colateral positivo, uma indústria e seus dirigentes com mais solidariedade e visão humana,modificando seus valores. AS LIÇÕES QUE VIRÃO DA CRISE

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