Brasil Energia | Ed. 462 - Abril, 2020
60 Brasil Energia , nº 462, 30 de abril de 2020 Jose Luiz Orlandi Jose Luiz Orlandi é engenheiro e atua há mais de 35 anos na indústria de petróleo, biocombustíveis e energia “Em qualquer questão há sempre três pontos de vista: O meu, o teu, e o correto” - Roberto Campos Escrevo hoje, dia 21 de março de 2020, no meio do “furacão” resultante do novo coronavírus e da enorme queda nos preços do petróleo. Furacão esse que torna difícil qualquer análise, e mais ainda qualquer exercício de “futurologia”. Debates sobre a comprovada responsabilidade da China na propagação do vírus tem desviado a atenção da seríssima questão dos preços do petróleo. A China é o maior importador de petróleo do mun- do, inclusive do Brasil. Segundo dados do MME, so- mente no mês de dezembro de 2019 o Brasil exportou 1,2 milhão de barris por dia para aquele país. É tam- bém o maior parceiro comercial do Brasil, sendo que nosso superávit nesse comércio tem sido da ordem de US$ 30 bilhões. Evidentemente que a China como o maior impor- tador de petróleo do mundo (6 milhões de barris por dia) poderá inegavelmente tirar partido da desvalori- zação dessa commodity , o que ocorrerá também com as commodities agrícolas e metálicas. Entretanto na realidade o verdadeiro estopim da crise foi o que aconteceu na última reunião da OPEP no dia 07 de fevereiro último, quando a Russia e a Ará- bia Saudita não chegaram a um acordo sobre a redução da produção de petróleo. Em represália a Arábia Saudi- ta aumentou a produção em 2,5 milhões de barris por dia. Essa atitude sim, fez o preço do petróleo desabar chegando a menos de US$ 30 por barril. Tendo em vista que essa é uma disputa na qual os dois países são perdedores, acredita-se que novas dis- cussões deverão acontecer nos próximos meses, as quais deverão conduzir os dois países a buscarem um entendimento que, certamente, pressionará os preços para um outro patamar, acima do que vem sendo pra- ticado. Qualquer movimento dos dois maiores produ- tores mundiais, tem impacto direto tanto na oferta como nos preços praticados globalmente. Os dois gigante juntos representam quase 24% da produ- ção mundial. Os USA encontram-se hoje também nesse patamar, sendo que uma expressiva parte dessa produção vem do chamado shale oil , o qual vem encolhendo e se mos- trando inviável em um mercado com preços abaixo de US$ 50 por barril. Oportuno enfatizar que a oferta de petróleo que vinha crescendo de forma constante deverá sofrer alguma desaceleração em razão dessa crise. Mesmo o Brasil, que já produz mais de 3 milhões de barris por dia, poderia saltar muito provavelmente para 4 ou 5 milhões de barris nos próximos anos. Agora é uma incógnita... Em um ambiente de crescimento econômico, o mercado consegue absorver, mesmo que parcialmente, o aumento da produção mundial (hoje em 97 milhões de barris/dia). Os problemas obviamente afloram em momentos de retração econômica, quando a oferta fica maior do que a procura. No que tange ao setor de biocombustíveis, o mes- mo ficará inviável caso seja mantido esse patamar de preços do petróleo. A experiência que tivemos de con- gelamento de preços no governo Dilma Rousseff, não apenas prejudicou fortemente a Petrobrás (corrupção à parte), como praticamente destruiu a indústria de eta- nol e biodiesel. Esse setor vinha se recuperando com a nova políti- ca liberal, não intervencionista, do governo atual, e la- mentavelmente pode estar caminhando para outra gra- ve crise. Lamentavelmente também que novos investimentos em E&P (Exploração e Produção) possivelmente ficarão em stand-by , aguardando por um cenário mais claro. O momento é de incertezas e exige cautela. TEMPOS DIFÍCEIS PARAO PETRÓLEO E OS BIOCOMBUSTÍVEIS
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