Brasil Energia | Ed. 462 - Abril, 2020
Brasil Energia , nº 462, 30 de abril de 2020 65 Rodrigo Leão Rodrigo Leão é economista, mestre em Desenvolvimento Econômico, coordenador técnico do Ineep e pesquisador do NEC da UFBa Historicamente, o controle do preço e da produção é o centro da disputa da indústria de petróleo nomundo. Des- de que emergiram como players globais, no pós-Segunda Guerra, os grandes produtores doOrienteMédio e doNor- te da África, que formam a Organização dos Países Expor- tadores de Petróleo (Opep), têm travado uma guerra com a Rússia e as sete irmãs, petrolíferas localizadas nos grandes polos consumidores (Estados Unidos e Europa). De um lado, os países produtores buscaram, ao longo do tempo, ampliar sua apropriação da renda petrolífera e aumentar o controle da produção pela estatização de em- presas instaladas em seus países. De outro, as companhias dos países consumidores lutaram para reduzir a parcela da renda detida pelos produtores e diversificar suas reservas petrolíferas, a fim de diminuir a influência dos produtores na indústria global de petróleo. Essa disputa se acentuou nas últimas décadas, à medida que novos players se tornaramgrandes produtores de petró- leo, principalmente no Oceano Atlântico. A partir dos anos 1980 – após as descobertas de petróleo noMar do Norte, no litoral brasileiro e no Alaska –, Noruega, Inglaterra, Brasil e Estados Unidos viram sua produção crescer. Mais recente- mente, a atividade onshore na Colômbia, a descoberta do pré-sal noBrasil, a exploração das areias betuminosas noCa- nadá e do shale gas nos EUA consolidaram a posição desses países como grandes produtores globais. Em1977, unicamente por conta da produção americana, esses países (Brasil, Canadá, Colômbia, Estados Unidos, In- glaterra e Noruega), doravante denominado América+2, ti- nham participação de 21% da produção global de petróleo. Essa participação chegou a quase 30%em1985 e, depois, de- clinou para próximo de 20%em2008. Todavia, desde então, observou-se aumento da parcela da produção daAmérica+2 no mundo, chegando a 29% em 2018, o que equivale a uma produção de 27,6milhões de barris de petróleo por dia. Isso significa que, agora, não apenas as Sete Irmãs pas- saram disputar o controle da produção da Opep e Rússia, como também dos “novos produtores” da América+2, in- cluindo seus governos e suas empresas. Nesse sentido, a “guerra” pelo controle da produção e do preço tem se acir- rado, culminando na formação de novos “polos geopolíti- cos do petróleo”, como o da Opep+. Formado pelos países da Opep e mais onze produtores liderados por Rússia, México e Oman, a Opep+ é uma es- pécie de resposta do grande eixo produtor global à Améri- ca+2 e às Sete Irmãs. Entre 2014 e 2016, após uma complexa negociação, a Opep+ passou a estabelecer cotas de produção visando re- gular o preço e impedir ascensão ainda maior da Améri- ca+2. A queda abrupta do preço e os cortes de produção abaixo do esperado, em 2020, também foram uma espécie de concertação da Opep+ que, entre outros efeitos, impõe grandes dificuldades para os produtores da América+2 por conta de seus custos de produçãomais altos que os da Rús- sia e Arábia Saudita, principalmente. Essa“guerra”, no entanto, está longe de terminar.AAgên- cia Internacional de Energia, no relatório “Oil 2020: Analy- sis and forecast to 2025”, lançado recentemente, estima que a produção dos países da América+2 deve subir para 33,4 mi- lhões de barris de petróleo por dia, em2025, o que represen- taria cerca de 34%da produção global. AOpep – mantendo o patamar da sua produção –, russos e mexicanos devem re- presentar, juntos, em2025, cerca de 44%da produção global de petróleo (algo próximo a 43milhões de barris por dia). Essa projeção mostra que a América+2 e as Sete Irmãs, cuja origemestá nos países desse grupo, podemganhar for- ça e aumentar a tensão pela disputa da produção e do preço nos próximos cinco anos. Mas a Opep+ não ficará passiva- mente observando a ascensão desse novo bloco geopolítico. As disputas entre as reservas petrolíferas devemaumen- tar, assim como a volatilidade dos preços. Novas fronteiras produtoras ficarão cada vez mais reféns dessas tensões, caso não tentem impor seus interesses nessa disputa. Caso con- trário, as ações da indústria de petróleo desses países serão adotadas ao sabor do bloco geopolítico mais próximo ao invés dos seus objetivos estratégicos. O limiar entre a benção e maldição do ouro negro con- tinuará mais tênue que nunca. ENTRE A BENÇÃO E A MALDIÇÃO DO OURO NEGRO
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