Brasil Energia | Ed. 462 - Abril, 2020

66 Brasil Energia , nº 462, 30 de abril de 2020 Paula Kovarsky Paula Kovarsky é engenheira, mestre em Finanças e Head of US Office e diretora de Relações com Investidores da Cosan desde 2015 Vivemos tempos estranhos. De uma hora para outra, fomos todos surpreendidos por umvírus novo e desconhe- cido que virou de cabeça para baixo a vida de todos. Um filme de ficção científica na vida real, sem um super herói ou heroína para resolver o problema. Pela frente, a incerte- za não só de quanto tempo vai durar a quarentena, mas de como serão os dias, meses ou anos depois que ela terminar. As estatísticas da pandemia são assustadoras.Onúmero de testes é infinitamente menor que o provável número de pessoas infectadas, em tese distorcendo a porcentagem de fatalidades. Mas o número absoluto de mortes é grande o suficiente: jámorrerammais de 200.000 pessoas e estima-se que o total de mortes deva chegar a múltiplos desse núme- ro, até que ummedicamento definitivo seja desenvolvido e uma vacina eficaz seja descoberta e aplicada em bilhões de pessoas ao redor do mundo. Some-se às mortes o impacto na economia global, deixando umrastro de negócios fecha- dos, empregos perdidos, sonhos engavetados.Opreço é ab- surdamente alto, sem a menor sombra de dúvida. Os assuntos green-house gas emissions ou climate change vinham dominando a pauta das discussões relacionadas a sustentabilidade e propósito no mercado financeiro, fazen- do com que crescesse absurdamente a relevância do tema ESG ( Environmental, Social e Governance ) como critério de investimento. O foco desse ano mudou, com o tema So- cial ganhando destaque e prioridade. Todos querem saber como as empresas estão se posicionando diante da pande- mia, como cada uma tem tentado ajudar e contribuir com seus stakeholders , buscando garantir o suprimento de itens essenciais e ajudar as comunidades em que estão inseridas, além de cuidar daqueles que não podem ficar em casa pa- ra que tudo continue funcionando. Essa é a prioridade do momento. Nada mais razoável que assim seja. Ironicamente, a pandemia do Covid-19 está geran- do impacto positivo na questão de mudanças climáticas, reduzindo a poluição dos grandes centros urbanos onde foi implementado o distanciamento social. Poluição essa que torna sistemas respiratórios mais suscetíveis à infec- ção causada pelo vírus. Estima-se que o lockdown na Chi- na tenha reduzido as emissões de carbono em aproxima- damente 25%, com queda de 40% no consumo de carvão usado nas principais termelétricas. A poluição do ar em Nova Iorque caiu pela metade em função das restrições à circulação.Na Índia se enxerga as montanhas doHimalaia a 150 km de distância. Já o céu de São Paulo tem amanhe- cido cada dia mais azul. Estamos aprendendo, a duríssimas penas, que a nature- za pode ser inclemente. Bill Gates já falava em2015 sobre as lições que deveriam ter sido aprendidas e atitudes tomadas com as experiências de SARS e Ebola, investimento míni- mo se comparado ao que ele estimava ser o custo de uma pandemia para a sociedade, algo como US$ 3 trilhões. Que lições vamos tirar dessa parada forçada e como as mudan- ças de hábito vão afetar as equações de oferta e demanda futuras ou as prioridades dos governos, das empresas e das pessoas? Vamos negligenciar investimentos em energias re- nováveis? E os investimentos para aumentar eficiência dos veículos ou produção de carros elétricos, num cenário em que a economia global precisará desesperadamente de fun- dos para se reerguer e o preço dos combustíveis fósseis esta- rá provavelmente mais baixo? Não se pode ignorar os avisos da natureza e é preciso agir enquanto é tempo. Nos vemos hoje diante da escolha impossível entre saúde hoje e saúde no futuro, qual o tem- po ideal de isolamento, quando vai ser seguro relaxar os procedimentos e quais as consequências de longo prazo pa- ra a economia e consequententemente para a vida de tantas pessoas. Só somos de fato capazes de aprender com erros. O tema de sustentabilidade, como critério de investimento de forma geral e de mudanças climáticas em particular, de- veria ganhar ainda mais atenção e senso de urgência daqui para frente. Temos a chance de trabalhar melhor agora, ou- vir o que dizemos cientistas, investir para que novas tecno- logias sejam descobertas e desenvolvidas, além de intensifi- car o uso das existentes para que não sejamos forçados, no futuro, a outras escolhas impossíveis: a privação de ar respi- rável, água potável, saúde, liberdade, ou o simples prazer de abrir a janela e ver um céu azul. QUANTO VALE UM CÉU AZUL

RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=