Brasil Energia | Ed. 463 - Junho, 2020
Brasil Energia , nº 463, 30 de junho de 2020 13 Telmo Ghiorzi Telmo Ghiorzi é doutor em Economia, engenheiro de petróleo e diretor de relações empresariais do Grupo UTC. PANDEMIA E ENGENHARIA Experiências vividas provocam sensações mais in- tensas do que as lidas ou ouvidas. Nunca poderemos compreender as outras pandemias, as guerras e demais tragédias como aqueles que as viveram. Mas sabemos que essas situações jamais são esquecidas e que elas ge- rammudanças culturais na sociedade. A pandemia que vivemos certamente não será esquecida. Mas ainda não sabemos que mudanças culturais ela nos trará. Sabemos, todavia, que a arma mais forte que temos para combatê-la são a ciência e a tecnologia. Elas per- mitiram decifrar o material genético do vírus, deram- -nos os ventiladores mecânicos, os medicamentos e a internet, que nos aproxima, mesmo à distância. São as inovações tecnológicas que, além de serem a força-motriz do crescimento econômico sustentável, nos fortalecem e aliviam neste momento. Por trás delas está a destruição-criativa. Embora com turbulências e dissensos, o governo es- tá combatendo a pandemia, sobretudo no que se refe- re à saúde das pessoas. Contudo, a crise econômica que surge tem potencial para ser profunda e duradoura. O combate precisa de mecanismos igualmente potentes e de longo prazo. Nossos setores econômicos são inter- dependentes, e as medidas têm de ser gerais, mas tam- bém setoriais. Há, claro, muito a ser pensado, concebi- do e implantado. Na indústria brasileira de petróleo, há contradições que precisam ser compreendidas e tratadas. O país está na fronteira tecnológica da exploração offshore. Além disso, como fruto e mérito das regras de conteúdo lo- cal (CL), o país construiu amplo parque industrial e formou centenas de milhares de profissionais qualifi- cados. Contudo, seus fornecedores não se destacam co- mo exportadores nem exercem funções de alto valor agregado nas Cadeias Globais de Valor (CGV). Ao con- trário, os recursos criados estão subutilizados devido à baixa competitividade que marca o Brasil – não apenas sua indústria de óleo e gás. Com ameaças à viabilidade da produção local, pa- rece oportuno criar estímulos poderosos à destruição- -criativa dos fornecedores locais. Os efeitos positivos sobre competitividade podem contribuir para manter a viabilidade da produção local de petróleo, transfor- mar o Brasil em exportador de bens e serviços e pavi- mentar seu upgrading nas CGV. A destruição-criativa da indústria reside, sobretudo, na engenharia. É ela, emsuas dimensões conceitual, básica, de- talhada e de produtos, que induz inovações e, portanto, au- mento de competitividade. Comefeito, o quemarca o êxito das políticas de inovação de outros países, transformando- -os em exportadores e induzindo seu upgrading nas CGV, é seu foco no desenvolvimento da engenharia local, ao lado da ampliação dos parques produtivos. A revisão de políticas do setor petrolífero brasileiro na retomada pós-pandemia precisa considerar estímu- los para a engenharia local. Além de competitividade, elas induzem aquisições locais de bens e serviços, ge- rando mais empregos e atividade econômica. O arcabouço regulatório do setor é sofisticado e ro- busto. Mudanças simples poderiam ser estimuladoras de engenharia, sem alterar sua essência. Um bom co- meço pode estar em regras de CL que, em vez de pena- lidades por não cumprimento, ofertem bônus no caso de engenharia feita aqui. Regras de Pesquisa, Desenvol- vimento e Inovação (PD&I) que reconheçam automa- ticamente engenharia como projeto de inovação. Re- gras tributárias que reduzam taxação sobre projetos com engenharia local. A pandemia é indiscutivelmente trágica. Mas temos de pensar em maneiras de sair dela mais fortes e cons- truir uma indústria mais apta à destruição-criativa para, assim, enfrentar os próximos desafios. Eles sempre vêm.
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