Brasil Energia | Ed. 463 - Junho, 2020
Brasil Energia , nº 463, 30 de junho de 2020 21 Wagner Victer Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo, e ex-conselheiro do CNPE AS CADEIAS PRODUTIVAS DE VALOR GLOBAL EM CRISE Apesar de o Brasil ser um dos maiores produ- tores de álcool do mundo, houve, graças à corri- da causada pelo novo coronavírus, um grande de- sabastecimento nacional do chamado álcool em gel há até pouco tempo. Isso aconteceu porque muitos fabricantes nacionais dependem da importação de espessantes como o Car- bopol, o que levou a Embrapa a desenvolver espessan- tes como a nanocelulose de pinus e eucalipto. Ao mesmo tempo, países como o Japão começam a abrir linhas de crédito subsidiadas para que seus for- necedores possam sair de países como a China rumo a uma verticalização nacional de cadeias produtivas con- sideradas estratégicas no território nacional. O fato é que a pandemia da Covid-19 no mundo quebrou todos os paradigmas e mudará o sistema de logística já consolidado na elaboração das cadeias pro- dutivas de valor. Esse novo cenário força países a vol- tarem a se fechar e priorizar estrategicamente suas li- nhas produtivas, tendência que também deve ser segui- da por grandes corporações. No ano de 2018, em meio à greve dos caminhonei- ros, foi revalidada a tese que sempre defendi, de que veículos abastecidos alternativamente por GNV seriam estratégicos, diante de um eventual desabastecimento, pois poderiam manter o Rio de Janeiro operando com um mínimo de movimentação. A disrupção dos fluxos de valor em função da pan- demia certamente levará à adoção de novas medidas, pois, muitas vezes, um pequeno componente depen- dente de logística internacional impede que o serviço de um determinado país funcione adequadamente. Ademais, questões de segurança nacional exigirão a reavaliação do que são bens e serviços estratégicos para cada país. Em corporações empresariais, como a pró- pria indústria de petróleo e gás, haverá uma reconside- ração de métodos e redirecionamento de fluxos de ca- pitais. Talvez o grande desafio que tenhamos nessa pós- -pandemia seja o de se inserir na grande rearrumação global das cadeias produtivas, revisando as estratégias de negócios e a forma de se portar na disputa com pa- íses de grande poderio tecnológico e econômico, como EUA, China e parte da Europa, que, recentemente, se demonstraram pouco solidários na prática do chama- do “comércio justo”. No Brasil, especialmente favorecido pelo novo pata- mar cambial da relação dólar/real, temos oportunidade de rever nossas cadeias produtivas, que estarão muito influenciadas por novas políticas públicas indutoras da geração de emprego no país. Esse novo rearranjo é im- possível de ser projetado com antecedência e acurácia em âmbito internacional, mas a tendência é que siste- mas de montagem, construção civil e a própria indús- tria de construção naval e offshore voltem a ter opor- tunidades no mercado brasileiro, logicamente sem es- tabelecer cartéis ou reserva de mercado, como já acon- teceu no passado. Da mesma maneira, na área de recursos huma- nos, muitas cadeias de valor serão realinhadas, não só pela implementação de novas tecnologias que via- bilizarão trabalho remoto, mas também no sentido de aproximar a moradia dos profissionais cuja pre- sença física é imprescindível no trabalho. Isso evita- ria impactos de novas greves de transporte público ou sistemas de lockdown . Essas características dos recursos humanos serão devidamente valorizadas e associadas em processos seletivos de profissionais iniciantes e já com mais ex- periência. Está cada vez mais claro que tais necessi- dades podem voltar a serem sentidas, visando à ma- ximização da rentabilidade de uma organização e sua sobrevivência.
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