Brasil Energia | Ed. 463 - Junho, 2020

ENTREVISTA André Araújo 46 Brasil Energia , nº 463, 30 de junho de 2020 fundamental para colocar o Brasil no top de competitivi- dade e atração de investimentos. O governo e as empresas terão de seguir discutindo os gargalos e as dificuldades pa- ra o país seguir competitivo em seus projetos. Quais são os principais pontos? Há a questão da clareza de como o gás fluirá, assumin- do-se que existem diversos blocos com uma proporção de gás expressiva e que há uma ansiedade domercado de que esse gás chegue aos consumidores. Há questões regulató- rias importantes que fazem parte do dia a dia de quem é operador hoje, como descomissionamento, abandono e caracterização de poços. Há uma série de pontos que são extremamente críticos para eliminar incertezas que sem- pre impactam a tomada de decisão de investimento. E há canal de diálogo para isso? Há um espaço muito amplo para um bom diálogo, re- conhecendo-se que nosso setor, apesar da crise, ainda co- loca bilhões de dólares no mercado. O grupo Shell redu- ziu, este ano, o capex de US$ 25 bilhões para US$ 20 bi- lhões, mas, ainda sim, estamos falando de US$ 20 bilhões, e não é qualquer empresa que pode falar disso. Esses in- vestimentos vão ter que ir para onde o grupo considera que são mercados atrativos. E estamos caminhando para isso? Sou otimista. Continuo na jornada de que o pré-sal do Brasil é um espaço importante, que se mostra competiti- vo. Obviamente, ninguém está parado. Esse é ummundo em que competitividade é rotina, então já se começa a ver países como Noruega e Reino Unido buscando encontrar uma forma de garantir atratividade para seus países. É im- portante a indústria local e autoridades (governo e regu- ladores) buscarem, em conjunto, novas formas de conti- nuar fazendo o Brasil um lugar crível para o investimento. A Shell tem interesse nos desinvestimentos da Petrobras em midstream e dowstream? A abertura do capital da empresa que será criada para os rotas 1, 2 e 3 está no radar? Estamos acompanhando tudo, mas, quando você fala de downstream , indo mais para refino, quem está envolvi- do – eventualmente se houver interesse do grupo Shell – é a Raízen. No midstream , vamos olhar as atividades e fazer um bom balanço da demanda. Não posso dizer que, hoje, é a grande prioridade do grupo, mas queremos encontrar uma forma, sem dúvida, de escoar nosso gás. O projeto MarlimAzul foi o primeiro, e será um pouco com a com- binação do que precisamos para escoar o gás doméstico com o interesse da organização de ter uma atuação ativa na comercialização de gás e energia. Há intenção de construir novas instalações de escoamen- to e processamento, ou o plano é solicitar acesso à Petrobras? Considerando-se as restrições de capex que temos, não posso dizer que vamos ter interesse obrigatório em cons- truir tudo por conta própria. Estamos analisando diver- sas opções, inclusive a de trabalhar com parcerias. A Pe- trobras é um excelente parceiro. O objetivo principal é encontrar formas de escoar o gás e atuar no mercado na ponta, junto aos clientes. Vamos buscar a melhor solução que faça sentido econômico para essa tomada de decisão. O plano é continuar crescendo no segmento de energia, além de Marlim Azul, apesar do adiamento dos leilões? A ideia é continuar nesse setor. Marlim Azul foi um projeto significativo porque colocamos os setores de Upstream, Power e Comercialização de Energia dentro do mesmo projeto. Acertar desejos e interesses e colo- car esse empreendimento, de forma integrada, foi um grande desafio e uma vitória muito importante. Power é um setor globalmente definido como uma área estra- tégica. O grupo reconhece que eletrificação é um dos grandes espaços de crescimento do setor de energia nas próximas décadas, e vamos olhar com muito cuidado a atratividade dos projetos. Acho que há, no país, uma oportunidade de combinar a produção doméstica com o mercado de Power. Só para ficar claro, não achamos que o mercado térmico é o único, mas ele, em função de o Brasil ter ainda uma carência no desenvolvimento de infraestrutura de escoamento de gás, é, sem dúvida, um dos segmentos que trazem um pilar muito forte pa- ra o desenvolvimento. A transição energética segue na pauta de prioridades? Sim.Anunciamos nossa ambição de zerar a emissão de carbono até 2050. Registramos projetos de usinas solares emMinas Gerais e estamos fazendo parcerias com donos de terra. Temos um pipeline de projetos, que, se materiali- zados na cidade deVárzea de Palmas [MG], são potencial- mente dez usinas que somariam 467 MW. Também já re- gistramos outorgas no município de Brasilândia. É o iní- cio de uma atividade, um mercado que olhamos, no Bra- sil, com bastante empenho e interesse. n

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