Brasil Energia | Ed. 463 - Junho, 2020

Brasil Energia , nº 463, 30 de junho de 2020 47 Magda Chambriard Magda Chambriard, engenheira com mestrado em Engenharia Química, foi diretora geral da ANP. Atualmente é pesquisadora na FGV Energia GÁS NATURAL NACIONAL OU IMPORTADO? Em março de 2020, desacordo entre a Arábia Sau- dita e Rússia quanto a oferta de petróleo, agravado pe- la imensa queda de demanda decorrente da pandemia do coronavirus, fez desabar os preços no mercado in- ternacional. Em abril, dificuldades para se colocar o petróleo no mercado e estoques lotados do produto fizeram que o petróleo do tipoWTI produzido nos EUA, para entrega em maio, fosse cotado a preços negativos. Um grande susto para o mercado! Uma situação inédita e inusita- da no histórico de mercado do chamado “Ouro Negro”. Igualmente inédito e inusitado foi o impacto da cri- se no setor petróleo brasileiro. Em março de 2020, pela primeira vez na história, a Petrobras, empresa de valor inestimável para a sociedade pelo esforço contínuo de aumento da produção brasileira e garantia da autossu- ficiência do país em petróleo, anunciou que precisaria cortar produção. A seguir, a notícia foi de que 62 plata- formas seriam hibernadas, por falta de economicidade. Nesse contexto, ao se observar o foco da empresa no pré-sal, ao mesmo tempo em que se constata parcelas crescentes de produção de gás sendo reinjetadas[1], res- surge a questão: gás natural importado ou gás do pré-sal? A resposta para essa pergunta precisa passar pelo preço e pela demanda do energético, além de pelo reco- nhecimento de que a tecnologia do GNL forneceu ele- mentos para se estabelecer uma paridade internacional para o preço do gás. No âmbito de uma crise de demanda por petróleo sem precedentes (mais que sete vezes maior do que a decor- rente do impacto da crise financeira de 2008, segundo a Agência Internacional de Energia) e operando em uma economia fragilizada, é de se esperar que todos os setores da economia busquem redução de custos. Em tempos de pandemia, a palavra de ordem é: proteja o caixa! Nesse contexto, não há como passar despercebido um custo do gás para consumo industrial da ordem do 3º mais caro dentre as principais referências da Europa [2]. Em números, em fevereiro de 2020 no Brasil, en- quanto o gás natural vendido para as distribuidoras custou emmédia a US$ 8,7/milhão de BTU na modali- dade firme renegociada, a carga spot de GNL importa- do chegou ao Brasil a US$ FOB 3,4/milhão de BTU [3]. Analisando essa discrepância à luz do esforço do go- verno federal em prol do gás natural a preços acessíveis (objetivo do Novo Mercado de Gás), parece inexplicá- vel que se considere inadmissível a prática de preços de derivados de petróleo dissociada da paridade interna- cional, mas que se aceite que o preço do gás natural im- portado via terminais de GNL tenha caído 47,4%, en- tre janeiro de 2019 e janeiro de 2020, enquanto o preço da molécula do gás natural vendido às distribuidoras tenha caído apenas 9,6% no mesmo período (MME – Jan de 2019 e 2020). Se o país não enfrentar o desafio de redução desses custos, com a urgência que ele merece, ao contrário de desfrutar os benefícios de contar com um mercado in- terno robusto para o gás nacional, vai acabar reinjetan- do o gás do pré-sal e exportando empregos, enquan- to oferta seu mercado para exportadores estrangeiros, dispostos (ou expostos) à paridade internacional im- posta pela realidade do GNL. E quando o país se der conta, muito provavelmente terá que investir pesado em infraestrutura de liquefa- ção (muito mais dispendiosa do que instalações de re- gaseificação) para competir, com empresas estrangei- ras, pelo mercado global de gás natural. Só que enquanto se opta pelo caminho a seguir, o setor petróleo impõe à indústria nacional elevados pre- ços do gás, que reduzem a competitividade brasileira, desmotivam novas unidades fabris ou, ainda pior, mo- tivam a construção de novas fábricas, fora do país. Fechar os olhos para essa realidade é desconsiderar as interações comerciais entre o Brasil e o mundo! [1] No 1º trimestre de 2020, a produção de gás natural do Brasil decresceu 12,3%%, chegando a 121,7 milhões de m3 por dia em março de 2020. Em sentido inverso, a reinjeção de gás produzido cresceu 7,5%, atingindo46% da produção nacional. [2] Eurostat, 2019 [3] MME, fevereiro de 2020.

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