Brasil Energia | Ed. 463 - Junho, 2020

Brasil Energia , nº 463, 30 de junho de 2020 59 Jerson Kelman Jerson Kelman, engenheiro e doutor em Engenharia, é professor da Coppe-UFRJ, ex-diretor geral da ANA e da Aneel e atual presidente do CA da Eneva DESPACHO CENTRALIZADO OU DESCENTRALIZADO O despacho de usinas num sistema térmico para o aten- dimento da carga poderia ser tratado numcurso de introdu- ção à microeconomia. Os geradores ofertam quanta energia queremproduzir e a qual preço.Apartir dessas informações, o operador do sistema constrói a curva de oferta (crescente como preço).Onde a curva de demanda (decrescente como preço) cruza a de oferta, aí se temo ponto de equilíbrio, defi- nidor do“preço spot”, a ser aplicado às compras e vendas efe- tuadas no intervalo de tempo considerado. São despachadas as usinas cujas ofertas de preço sejammenores ou iguais ao preço spot. As demais nada geram. Eólicas e solares podem participar, desde que associadas a outras usinas que possam ser acionadas em caso de pouco vento ou insolação. Nessa sistemática, o despacho é descentralizado.Cada usina age em seu próprio interesse, sem visar o bem comum. Mas ainda assim, como diria Adam Smith, o resultado agregado serve bemaos consumidores. Num sistema hidrotérmico o problema émais complexo devido à incerteza e à disputa pela água. Tratemos primeiro da incerteza.Ogerador hidroelétrico temque decidir se usa a água para produzir eletricidade ou se a mantém estocada no reservatório para uso futuro. Se chover muito e o reservató- rio verter, a decisão de não produzir para economizar água será vista retrospectivamente como ruim. Se, por outro lado, ocorrer uma seca, a capacidade coletiva de produção das usi- nas hidroelétricas diminuirá, o preço spot subirá, e a decisão será considerada boa. Essa dependência temporal da capaci- dade de produzir inexiste num sistema térmico. Tratemos agora da disputa pela água. A capacidade de produção de uma usina que não esteja na cabeceira da cas- cata depende do uso da água que se faça a montante, tanto por outras usinas quanto por outros usuários. Emparticular, quando a usinaAproduz (passando água pelas turbinas), es- tará aumentando a disponibilidade hídrica da usina B, loca- lizada a jusante. Essa dependência da capacidade de produzir entre unidades geradoras inexiste num sistema térmico. Quandoumirrigante localizado amontante produz, es- tará diminuindo a disponibilidade hídrica da usina B. Te- oricamente, o direito de acesso à água é disciplinado pelas outorgas emitidos pelos governos estaduais e federal. Mas na prática em algumas bacias há mais água sendo utilizada na irrigação do que seria permitido. A reação do Setor Elé- trico nesses casos tem sido débil, essencialmente devido ao “efeito carona do MRE” (a usina recebe a mesma fração da produção coletiva, a despeito do decréscimo de produção por falta de água). Odespacho centralizado é usado há décadas.Muito tem sido aperfeiçoado, mas o objetivo do modelo de otimiza- ção continua sendo a minimização do custo nos próximos anos, considerando a incerteza sobre o comportamento fu- turo das afluências às usinas, da evolução da carga, do custo unitário operativo das térmicas e do custo do déficit.Omo- delo produz dois resultados: o despacho e o customarginal de operação, que tem sido utilizado para formar o preço spot (o PLD). Conceitualmente, a decisão centralizada resulta no uso ótimo dos recursos energéticos. Claro, desde que seja possí- vel modelar estocasticamente as diversas fontes de incerte- za e capturar corretamente os custos tangíveis e intangíveis impostos à sociedade por um eventual racionamento. Como passar dos anos, o Setor Elétrico foi ficando cada vez mais complexo e a “infantilização” dos agentes gerado- res – no sentido que não são responsáveis pela decisão sobre a quantidade de energia que suas respectivas usinas geram e os consequentes resultados econômicos – resultou numa avalanche de disputas judiciais. A separação entre lastro e energia, atualmente em discussão, poderá facilitar a incor- poração de algumas características do despacho descentra- lizado, que permitam fazer melhor uso do conhecimento e da inteligência dos agentes de geração. Suponho que haja gente talentosa buscando a síntese do que há de melhor nos despachos centralizado e descentra- lizado. Arrisco umpalpite: talvez a curva de oferta possa ser construída em dois passos. Primeiro, a partir dos lances de quantidade-de-energia e preço dos geradores, como num sistema puramente térmico. Segundo, por meio de “lances sistêmicos” feitos pelo operador, com base em modelo de otimização que use como “parque gerador” as usinas com lastro cujos lances tenham sido inferiores à respectiva capa- cidade conjuntural de produção.

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