Brasil Energia | Ed. 464 - Agosto, 2020
Brasil Energia , nº 464, 31 de agosto de 2020 13 Rodrigo Leão Rodrigo Leão é mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e pesquisador do Ineep e da UFBA O CRESCENTE PAPEL DAS STARTUPS NO PROCESSO DE TRANSIÇÃO ENERGÉTICA A menor intensidade de capital inicial e demanda por rápida inovação tecnológica das energias limpas ampliou a participação das startups na indústria de energia, principal- mente em renováveis. Elas têm provocado uma reorgani- zação importante na indústria energética tanto da Europa, quanto dos Estados Unidos. Todavia, a forma de participação das startups e a sua ar- ticulação com a indústria tem ocorrido de forma diferente. No continente europeu, elas estão dispersas, principalmen- te na parte ocidental, e,mais recentemente,mais integradas com as grandes majors de petróleo. Nos Estados Unidos, há maior concentração das startups, principalmente na Cali- fórnia, onde há um grande investimento em energia limpa, e no Texas, onde está concentrada a indústria petrolífera. As principais majors europeias têm se integrado com startups de energia por intermédio de programas e editais para financiar startups , e também através de aquisições. Em 2017, a joint-venture Butamax (50% BP e 50%Du- Pont) comprou a Nesika Energy e sua fábrica de etanol no Kansas. Com a ampliação planejada das instalações da Ne- sika para incluir a produção de bioisobutanol, a companhia visava avançar emdireção à bioeconomia e apoiar parcerias com comunidades rurais. Já em 2019, a BP desembolsou mais US$ 200 milhões para adquirir 43% da Lightsource, uma das maiores startups de solar da Europa. Tambémem2019, a ShellVentures, braço americano da holandesa Royal Dutch Shell, investiu na empresa de bio- massa Punjab Renewable Energy Systems. O investimento não foi divulgado. A francesa Total, por sua vez, opera o fundo de risco To- tal Energy Ventures, que investiu em vinte startups desde a sua criação em 2008. Na média de 2010 a 2018, a petrolífe- ra apresentou a maior participação de renováveis (cerca de 5%) na carteira de investimentos em comparação com as demais empresas do setor (média inferior a 2%). A Equinor também fez movimentos importantes na aquisição de startups . Em 2017, a norueguesa adquiriu 43,75% do projeto solar de Apodi no Brasil mediante a compra de 40% da Scatec Solar e 3,75% da ApodiPar. O projeto iniciou as operações comerciais em2018.Alémdis- so, a estatal Statkraft transferiu todos os seus ativos de eó- lica offshore para a Equinor. Em 2018, a companhia com- prou 50% de três projetos eólicos offshore em fase inicial na Polônia; anunciou o Hywind Tampen; e venceu uma li- citação de arrendamento eólico offshore emMassachusetts. Além disso, adquiriu 50% do parque solar Guanizul 2A na Argentina da Martifer Renewables. Nos Estados Unidos, há uma difusão gigantesca de star- tups. No setor de energia renovável, as startups de energia do país representavam 66%do total global. Segundo tese de doutorado de Hudson Mendonça, o papel do venture capital é fundamental para o crescimento dessas empresas no mercado americano. Segundo o autor, “é possível corroborar a influência do ecossistema de ventu- re capital no surgimento das startups ao observar que 40% das empresas da amostra estão sediadas na Califórnia, esta- do onde se localiza oVale do Silício, maior referência mun- dial em termos de startups , empreendedorismo e venture capital ”.ACalifórnia conta comduas universidades intensi- vas em tecnologia – a Universidade de Stanford e a Univer- sidade da Califórnia/Berkeley –, que alavancam o proces- so inovativo na região, estimulando a atuação das startups . NoTexas, há umnúmero significativo de startups inova- doras no segmento de petróleo e gás, como a DeepCast.ai, que avalia processos produtivos, desde a localização dos po- ços até à previsão da produção, utilizando big data . Outro exemplo é a Pursuit, que desenvolveu ferramenta de com- pletação de poços para reduzir a produção de água enquan- to aumenta a produção de petróleo em poços horizontais. Não cabe superestimar o peso das startups na transição energética, todavia é importante considerar que essa“nova” esfera produtiva formada por essas empresas exerce papel importante para apoiar esse movimento e ajudar a redese- nhar determinados segmentos energéticos.
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