Brasil Energia | Ed. 464 - Agosto, 2020
18 Brasil Energia , nº 464, 31 de agosto de 2020 Claudia Bethlem Claudia BP Bethlem é consultora ambiental independente com mestrado em Oceanografia e especialização em estimativas de abundância de mamíferos marinhos. RUMO ÀS OPERAÇÕES CARBONO ZERO A corrida para atingir as metas do Acordo de Pa- ris aumenta a pressão sobre os compromissos firmados para redução das emissões de carbono nas operações de exploração e produção de energia - e o licenciamen- to ambiental pode ser aliado no atingimento dessas metas. A Iniciativa Climática para Óleo e Gás (OGCI), estabeleceu metas coletivas de redução de 20 kg a 21 kg de CO2 por barril de óleo equivalente comercializa- do. Participam empresas como Petrobras, BP, Equinor, Exxon, Chevron, Shell, Repsol, Aramco, Total, CNPC, ENI e Occidental. Muitas estabeleceram metas individuais para os di- ferentes escopos, considerando que as “supermajors” anunciaram compromissos de “net zero emissions” em grande parte dos Escopos 1 e 2, respectivamente, as emissões produzidas no local da operação e aquelas ter- ceirizadas, que representam, em geral, 10% das emissões totais dessa categoria. O escopo 3, no entanto, ainda é o grande desafio para que as reduções sejam significativas e contribuam para o resultado final almejado. Ele inclui as emissões geradas pela queima de combustível pelos consumidores e ainda não há clareza de como será geri- da essa coleta de dados, e qual sua abrangência real. Para iniciar o processo, é possível, em um primeiro momento, realizar o inventário do estado da arte das emissões no momento presente, do escopo 1, que já en- volve um número considerável de fontes distintas de entrada de dados para o cálculo final das emissões. Uma vez estabelecido a abrangência de cada escopo, e coletados os dados do inventário, é necessário definir uma sistemática robusta para coleta desses dados pa- dronizando sua entrada, considerando toda a cadeia de serviços que participa de cada operação. Muitas empre- sas de diversos setores já elaboram e definem suas me- todologias internas de coleta e sistematização de dados através de manuais e treinamentos, fundamentais para a robustez dos cálculos. A forte pressão para o alcance das metas por parte dos investidores traz otimismo de que grande parte das empresas será significativamente motivada a acelerar a adequação de metas, com uma nova realidade ambien- tal e econômica. Até o momento, a gestão das emissões é o único modelo que reflete de maneira palpável e quantitati- va a pegada de cada etapa da operação. Nesse sentido, é promissor aliar a gestão das emissões ao licenciamento ambiental, buscando trazer mais celeridade e visibili- dade ao processo que se baseia nos Estudos de Impacto. Cabe diferenciar que uma avaliação de impacto é fundamental para atividades que nunca foram reali- zadas antes. Porém naquelas bacias já bastante produ- tivas, com Programas de Monitoramento intensivos e contínuos, não há nenhuma relevância, e sim um gran- de desperdício de recursos para um resultado subjetivo. Os dados quantitativos sobre os impactos ambien- tais causados à atmosfera tornam claras as principais pressões da operação sobre o clima e também aproxi- mam do entendimento dos impactos cumulativos e si- nérgicos de cada operação, que seriam o calcanhar de Aquiles das agências ambientais e de toda a gestão. O antigo conceito de capacidade de carga dos am- bientes, que seria o ideal para definir o número de ope- rações possíveis dentro de cada bacia, por exemplo, ja- mais foi definido ou delineado de maneira efetiva. No caso dos ambientes marinhos, uma analogia ao que te- mos em termos de emissões atmosféricas, seria quanti- ficar o limite máximo que cada bacia suportaria, a par- tir da sobreposição das plumas de dispersão e das car- gas dos contaminantes de cada operação, mapeando as zonas de mistura até onde as concentrações dos conta- minantes chegariam a zero. Apesar de já termos dados suficientes para isso, falta realmente modelar. Dessa forma, entendo que precisamos dar esse passo rumo à realidade de 2020, centralizando esforços para atingir as metas de redução do aquecimento global, in- corporando ao processo de licenciamento o esforço her- cúleo que será, num primeiro momento, o mapeamen- to das fontes e o cálculo das emissões em cada empresa.
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