Brasil Energia | Ed. 464 - Agosto, 2020
Brasil Energia , nº 464, 31 de agosto de 2020 31 Paula Kovarsky Paula Kovarsky é Head of US Office e diretora de Relações com Investidores da Cosan ETANOL - UMA SOLUÇÃO BRASILEIRA SIM, E DAS BOAS Mudanças climáticas são um problema global. Mas is- so não quer dizer que a solução deva ser universal. Ten- tar encontrar uma solução única que funcione igualmen- te em qualquer lugar, dadas as enormes diferenças socio- econômicas de cada país, parece no mínimo pouco efi- ciente. Olhar para alternativas eficazes e, principalmente, compatíveis com a realidade de cada lugar pode ser uma boa ideia. Nosso etanol é um ótimo exemplo: uma solu- ção brasileira que funciona! Para começo de conversa precisamos comparar alterna- tivas de forma correta e completa. É fácil argumentar que o carro elétrico (EV) emite menos gás carbônico do que os motores a combustão (CV) olhando apenas o combustí- vel gasto para mover os veículos, uma vez que no caso do EV simplesmente não há combustão. No entanto, a ener- gia produzida para alimentar a bateria do carro pode emitir CO2.Omesmo vale para a produção da gasolina ou do eta- nol e para todo o processo de manufatura de CVs e Evs, in- cluindo as baterias. Uma comparação justa, portanto, deve considerar toda a cadeia: well to wheel, ou do poço à roda. E aí a nossa solução aparece no topo do ranking. Considerando as emissões de CO2 well-to-wheel, um CVmovido 100%a etanol hidratado, que temna sua com- posição cerca de 95% de etanol e o restante de água, emite aproximadamente 90 gramas de CO2 por quilômetro ro- dado (gCO2/km). Um carro 100% elétrico no Brasil, cuja matriz de geração de energia elétrica é predominantemente renovável, emite algo como 130gCO2/km. Esse mesmo EV naChina, onde ainda predomina a geração elétrica a carvão e a gás natural, apesar dos esforços para aumentar a parcela de renováveis, emite cerca de 320gCO2/km.Mesmo naNo- ruega, com matriz praticamente toda baseada em hidrelé- tricas, umEV emite perto de 100gCO2/km. Graças à adição obrigatória de etanol, fixada em 27% (E27) desde 2015, a gasolina brasileira pode ser considera- da a mais limpa do mundo. Com a mistura, os CVs a ga- solina no Brasil emitem, em média, quase 300 gCO2/km. Nos Estados Unidos, que também adotam a adição, a taxa chega perto dos 400 gCO2/km. Nesse caso, não só o per- centual de mistura é menor, 10% (E10), como o etanol de milho tem um gasto energético maior na produção, em comparação com o de cana-de-açúcar. O etanol brasileiro é 90% menos poluente que a gasolina e 30% menos po- luente que seu similar americano. E o chamado etanol ce- lulósico, ou etanol de segunda geração, aumenta em cer- ca de 50% esta vantagem. O Brasil está na dianteira deste mercado, tendo a única planta de etanol de segunda gera- ção em escala comercial do planeta. O uso de EVs emmaior escala no Brasil em grandes ci- dades, e principalmente a interiorização do seu uso, reque- reria investimentos relevantes para reforçar a rede elétrica. No caso do etanol, a infraestrutura de transporte e distri- buição já existe, comempresas que investempara distribuir o produto nos mais de 40 mil postos de combustíveis exis- tentes de norte a sul do país, sendo que a quase totalidade da produção de veículos no país é flex. Ainda que EVs pos- samsimrepresentar uma solução para oBrasilmais a longo prazo, não faz sentido abrir mão de uma solução madura e testada como o etanol. Temos um desafio gigantesco de re- tomar o crescimento econômico no Brasil, nummomento onde os recursos não estão exatamente sobrando. O Brasil tem inúmeros problemas. E muitas das vezes em que tentamos criar soluções caseiras ou“jabuticabas” que só existem no Brasil, dificultamos tremendamente as coisas. O etanol brasileiro é sim uma jabuticaba, mas das boas, daquelas que devemos nos orgulhar. Tudo is- so sem entrar no mérito da economia circular da indús- tria do etanol, como: a cogeração de energia feita a par- tir do bagaço de cana, cuja sazonalidade dada pela safra serve de complemento perfeito para hidrologia na gera- ção hidrelétrica; a possibilidade de transformar o baga- ço em pellets e exportar para substituição de carvão; a geração elétrica a partir do biogás oriundo do processo; e por aí vai. Um verdadeiro ecossistema de energia sus- tentável disponível no nosso quintal. Temas para os pró- ximos artigos...
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