Brasil Energia | Ed. 464 - Agosto, 2020

Brasil Energia , nº 464, 31 de agosto de 2020 35 Ieda Gomes Ieda Gomes é consultora independente e membro do conselho de administração de empresas internacionais de energia, infraestrutura e certificação A despeito das dificuldades logísticas em suprir merca- dos de pequeno porte, nos últimos três anos ocorreu uma evolução impressionante do negócio de GNL na América Central e Caribe, impulsionada por investimentos privados e pela disponibilidade de GNL a preços competitivos, para substituir derivados de petróleo, inicialmente na geração de eletricidade. A títulode exemplo, na Jamaica, onde nãohá infraestru- tura de transporte e distribuição, existe ummodelo multi- modal. Uma FSRU, estacionada no mar, no Sul da ilha, re- cebe GNL importado e o entrega regaseificado a consumi- dores industriais, uma planta de co-geração e uma terme- létrica, através de um gasoduto. A FSRU também abaste- ce, através de uma operação ship-to-ship comumpequeno navio, oNorte do país. Uma parte do GNL é regaseificado e entregue a uma usina na região, e o restante é entregue em ISO-containers e transportado por caminhões, para con- sumidores locais. A FSRU no Sul também abastece outro pequeno navio tanque de GNL, que o transporta até uma FSU de pequeno porte, em Porto Rico, onde um terminal regaseifica parte do GNL, entregue a uma termelétrica de 440 MW; o restante é injetado em ISO containers para co- mercialização para outros consumidores, via caminhões. Enquanto isso, pequenas plantas de liquefação na Fló- rida carregamGNL em ISO containers, que são carregados em navios containers convencionais para os mercados das Bahamas, Barbados, Porto Rico, e mesmo o Haiti, onde in- dústrias locais querem utilizar fontes mais limpas e confiá- veis. Terminais onshore convencionais no Panamá e Repú- blica Dominicana foramadaptados para fazer transbordo a navios de pequeno porte, carregamento de caminhões crio- gênicos e bunkering de GNL. Na América Central, existem ainda projetos emdesenvolvimento na Nicarágua, El Salva- dor e umsegundo terminal de GNL no Panamá. Empouco tempo, assistimos a uma transformação de grande signifi- cado no modelo de negócios de gás de uma região. Onde essa transformação pode se aplicar ao Brasil? Em primeiro lugar, o país deverá continuar a impor- tar gás na próxima década. As projeções governamen- tais de disponibilidade de gás do pré-sal indicam uma disponibilidade de 37 MMm3/dia em 2023, atingindo 71 MMm3/dia em 2030. Porém a capacidade de escoa- mento das rotas 1, 2 e 3 é de 44 MMm3/dia, com satura- ção prevista para 2026-2027 (EPE). A menos que sejam construídas uma quarta e quinta rotas, mesmo volumes tecnicamente viáveis de gás do pré-sal continuarão a ser maciçamente reinjetados. Já o consumo de gás na malha integrada esperado para 2029 seria de 166 MMm3/dia, incluídos 24 MMm3/dia de demanda a ser criada pelo Novo Mercado de Gás, e o con- sumo de termelétricas com um despacho máximo de 80 MMm3/dia. O volume cai pela metade, caso as termelétri- cas sejam despachadas de forma flexível e se não for criada demanda adicional com o NovoMercado de Gás. Comprojeções relativamentemodestas para a oferta do pré-sal, a saturação das três rotas de escoamento e as incer- tezas relativas à disponibilidade de gás boliviano, a depen- dência do Brasil do GNL importado pode crescer. Até 2023, devem estar em operação cinco terminais de importação, dos quais três operados por empresas privadas e dois pela Petrobras. Outros dois ou três terminais estão sendo desenvolvidos por investidores privados em diversas regiões do país. Em segundo lugar, a disponibilidade de GNL a preços baixos no mercado spot de curto prazo pode impulsionar novos negócios de cabotagem, bunkering e entrega de con- tainers por via rodoviária, marítima e fluvial. Os leilões de eletricidade com inflexibilidade máxima de 50% incenti- vamo crescimento da oferta de plantas à GNL, pois os pro- dutores de gás associado que não possuem um portfólio muito extenso de gás doméstico teriam dificuldades maio- res de manejar a flexibilidade das usinas com suprimento sustentado pelos fluxos contínuos de petróleo. A incerteza no Brasil sobre a disponibilidade de gás na- cional e boliviano favorecem o desenvolvimento de novos negócios de GNL. OS NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO PARA O GNL

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