Brasil Energia | Ed. 464 - Agosto, 2020
74 Brasil Energia , nº 464, 31 de agosto de 2020 Adilson de Oliveira Adilson de Oliveira, engenheiro, pós graduado em Administração e doutor em Economia, é professor titular do Colégio Brasileiro de Altos Estudos e membro do Conselho Curador da UFRJ Neste artigo, colaborou Luis Eduardo Duque Dutra , professor Adjunto da Escola de Química da UFRJ Até a revolução industrial, a vida social esteve as- sentada nos fluxos energéticos locais. Ao centrar suas atividades nos combustíveis fósseis, a revolução indus- trial reestruturou a vida social em torno dos seus esto- ques acumulados pela natureza. A relocalização e a con- centração espacial da vida social, viabilizadas pelo uso desses estoques, provocaram aumentos na produtivida- de do trabalho, que redundaram em substancial incre- mento do bem estar nas sociedades industriais. Com o tempo, aprendemos que a queima desses es- toques tem um efeito colateral grave. Ela provoca a con- centração de CO 2 na atmosfera, elevando a tempera- tura no planeta. A transição energética dos estoques de combustíveis fósseis para os fluxos de energias renová- veis tem por objetivo evitar esse problema. No Brasil, a transição energética foi iniciada precoce- mente. Sem estoques relevantes de combustíveis fósseis, nossa política energética voltou-se para a expansão dos fluxos de biocombustíveis e de hidroeletricidade para su- prir o processo de industrialização. Os estoques de petró- leo permaneceram exercendo papel central na gestão do mercado de combustíveis, porém a gestão do mercado elétrico foi centrada nos estoques de água dos reserva- tórios hidrelétricos. Essa situação favoreceu a expansão das fontes renováveis, porém delegou a confiabilidade do fornecimento elétrico à gestão dos estoques de água. Realizada pelo ONS com o apoio de modelos com- putacionais, essa gestão exige a ampliação dos estoques de água para evitar a necessidade de racionar o suprimen- to de eletricidade em situações de hidrologia desfavorá- vel, como ocorreu no início da década passada. Porém, a resistência das comunidades locais à construção de novos reservatórios tem exigido do sistema elétrico a ampliação do uso dos estoques de combustíveis nessa gestão. Nesse contexto, o gás natural (GN) é visualizado como combustível prêmio para cumprir essa tare- fa, pois oferece o benefício adicional de servir como âncora para a expansão da logística de dutos neces- sária para a substituição de derivados de petróleo na matriz energética. Contudo, a gestão da confia- bilidade do suprimento elétrico centrada nos esto- ques de água exige que a logística do GN assuma os riscos hidrológicos. Vale dizer, as centrais térmicas têm que assumir o risco de ociosidade de sua logís- tica de suprimento de GN nos longos períodos de hidrologia favorável. Na prática, a importação de GNL, a preços de cur- to prazo ( spot ), tem sido adotada pelas centrais térmicas para mitigar esse risco. Essa solução viabiliza a expansão dos fluxos de energias renováveis no suprimento elétrico, porém torna a confiabilidade do sistema elétrico brasi- leiro refém do mercado internacional de GNL. A descoberta de vastos reservatórios de hidrocarbone- tos offshore aumentou significativamente nossas reservas de GN. Esse contexto cria condições objetivas para que es- sa vulnerabilidade seja removida. Para tanto, é indispensá- vel a ampliação de nossa incipiente logística para colocar o GN doméstico à disposição do mercado elétrico. A gestão dos fluxos elétricos centrado nos estoques de água é uma das principais barreiras para essa expansão. Sem que os geradores (térmicos e hidrelétricos!) possam decidir autonomamente o despacho econômico de suas centrais, o GNL importado continuará a garantir a con- fiabilidade do suprimento elétrico. E o estoque de GN doméstico não contará com a alavanca para a expansão de sua logística proporcionada pelo mercado elétrico. O debate no Congresso de um novo arcabouço re- gulamentar para o mercado do GN deve contemplar mudanças profundas na sistemática atual de gestão dos estoques de água para que o desejado “choque de ener- gia barata” se torne realidade. TRANSIÇÃO ENERGÉTICA: DOS ESTOQUES PARA OS FLUXOS
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