Brasil Energia | Ed. 466 - Dezembro, 2020
14 Brasil Energia , nº 466, 1 de dezembro de 2020 RENOVÁVEIS grande. Isso por ter, além de um parque de geração renovável em crescimento acelerado, uma in- dústria desenvolvida e mão de obra mais qualificada do que os países africanos, o que facilitaria a instalação de unidades produ- tivas de hidrogênio por aqui. Conta também a favor do Bra- sil o fato de o país ter alta produ- ção agrícola, com demanda ele- vada de fertilizantes – que utili- zam hidrogênio em larga escala para produzir amônia, insumo intermediário de fertilizantes ni- trogenados – e de ainda depen- der em 80% de seu consumo de importações. Além disso, a bai- xa produção nacional de fertili- zantes usa o processo convencio- nal de reforma do gás natural pa- ra produzir o hidrogênio cinza e mesmo assim ainda precisa im- portar amônia líquida. Esse ce- nário favorece a criação de de- manda interna. CURTO PRAZO Esse mercado consumidor ime- diato da indústria de fertilizantes poderia ajudar a compor a deman- da, em conjunto com a exporta- ção, por plantas novas de hidrogê- nio verde. Com o Sistema Interliga- do Nacional atendendo todo o pa- ís, essas novas indústrias de hidro- gênio poderiam facilmente firmar contratos de compra de energia re- novável para se fixarem próximas a plantas de fertilizantes e supri-las diretamente, o que tornaria o in- vestimento mais competitivo. Uma outra possibilidade de curto prazo para criar deman- da interna é o uso do hidrogênio verde como armazenamento de energia em parques eólicos ou so- lares. Nesse caso a primeira van- tagem desses sistemas, em com- paração com as baterias quími- cas convencionais, é a possibili- dade de armazenar o gás em tan- ques por longos períodos, o que não ocorre com as baterias, que perdem a energia estocada com o tempo. O hidrogênio armaze- nado pode gerar energia nas ho- ras necessárias para os parques, o que pode ocorrer no mesmo dia do armazenamento ou depois de meses, em turbinas a gás ou em células de combustível. É vantagem competitiva ain- da do hidrogênio, em comparação com as baterias, a separação entre potência (despacho) e armazena- mento de energia. Isso siginifica, em resumo, que o gerador, se qui- ser aumentar o volume de hidro- gênio, só demandará acrescentar mais tanques para estocar o gás ge- rado pelos eletrolisadores. Já no ca- so das baterias há a necessidade de aumentar a potência instalada para ter mais capacidade de armazena- mento químico. MODELO Ao se pensar no potencial de longo prazo, de criar um po- lo de exportação do hidrogênio verde, há várias estruturações possíveis. Poderiam envolver por exemplo um ou mais gru- pos industriais interessados em criar um complexo de hidrogê- nio com garantia de suprimento de energia renovável disponível ou ainda surgir a partir de um investidor de energia que, ao fa- zer os cálculos para erguer um novo parque eólico ou solar (ou híbrido), notasse que a venda de hidrogênio verde para exporta- ção agregaria valor para finan- ciar o projeto greenfield . Embora no Brasil ainda não exista nenhum projeto em ava- liação, mesmo que já se tenha tecnologia nacional (Hytron) e estrangeira (ThyssenKrupp) ap- tas para montar unidades eletro- líticas para o H2 verde por aqui, no exterior já há exemplos de investimentos que podem ser- vir de base para futuros interes- sados. Não à toa, segundo rela- tório da consultoria Wood Ma- ckenzie, no último ano os pro- jetos de hidrogênio verde passa- ram de um pipeline de 3,5 GW para 15 GW, movimento que de- ve continuar e fazer o custo do insumo cair 64% até 2040. O projeto mais importante na atualidade foi divulgado em ju- lho e será na Arábia Saudita, en- volvendo três grandes empresas: a alemã ThyssenKrupp, detento- ra de tecnologia de eletrólise al- calina para produção de hidrogê- nio verde, a norte-americana Air Products, maior produtora mun- dial de hidrogênio (cinza) e de outros gases industriais, e a esta- tal saudita ACMA Power. O investimento de US$ 7 bi- lhões, prometido para entrar em operação em 2025, mira a produ- ção de 650 toneladas por dia de hidrogênio verde, que será gera- do pela tecnologia alemã a partir da eletricidade renovável prove- niente de 4 GW em parques eó- licos e solares a serem implan- tados em uma nova cidade que também será construída no país árabe, na fronteira com o Egito e a Jordânia, batizada como Neom. O hidrogênio verde produ- zido na Arábia – cuja produção
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=