Brasil Energia | Ed. 466 - Dezembro, 2020
34 Brasil Energia , nº 466, 1 de dezembro de 2020 HÍDRICA da vez mais a função de modular a carga ao longo das horas. “Édifícil definir como precificar es- ses atributos, mas as hídricas deveriam ser remuneradas por isso”, defendeu Marcondes. A hidrelétrica mais moduladora do que de sazonalizadora, com a ge- ração variando tanto quanto a carga, exigirá do operador do sistema mais parcimônia no uso da energia arma- zenada em forma de água, tendo o cuidado de não deplecionar excessi- vamente os reservatórios. “Já é um clamor do setor elétrico o reconhecimento de que os atributos das hidrelétricas com reservatórios são altamente valiosos e que elas são avali- zadoras do crescimentodas outras fon- tes renováveis”, disse superintendente de Expansão e Operação de Geração e Transmissão da Cemig, Marcelo de Deus Melo. A Cemig é uma das maio- res geradoras hidrelétricas dopaís, com 12 UHEs e 33 PCHs e CGHs, que so- mam5,8 GW. Sem as hídricas o Brasil teria como alternativa, para expandir as eólicas e solares, investir pesadamente em tér- micas a gás e emgasodutos para suprir essas usinas instaladas próximas aos centros de carga. Considerando as dificuldades ambientais para a construção de novos reservatórios e as pressões pe- la definição dos usos múltiplos das águas dos reservatórios, a regulação deve caminhar não só para a valo- ração adequada das águas do pon- to de vista energético, como tam- bém para o estímulo ao uso híbrido e mais eficiente das fontes. Melo cita como exemplo o projeto de Cemig de construir parques fotovoltaicos sobre o espelho do reservatório da UHE Três Marias, com comparti- lhamento de conexões e instalações. DISTORÇÕES Para o vice-presidente deGeração e Comercialização da CTG Brasil, Evan- droVasconcelos,“a forma mais prática de valoração das hidrelétricas é o pa- gamento por disponibilidade de capa- cidade”. O executivo disse que “o PLD horário, a partir do próximo ano, é bem-vindo porque dá umsinal de pre- ço importante para as hidrelétricas”, mas ressaltou que para o Brasil alcan- çar um modelo de precificação real- mente “baseado na dinâmica de mer- cado” é preciso primeiro corrigir dis- torções na regulação do setor, citando como exemplo aquelas que resultaram no imbróglio doGSF. Vasconcelos citou também co- mo distorção a forma “completamen- te anacrônica” como é calculada atual- mente a garantia física das hidrelétri- cas. Omodelo de rateio viaMRE, cria- do no final dos anos 1990, segundo ele, nasceu em um momento em que os computadores não conseguiam calcu- lar essas garantias individualmente. “Já existe tanto metodologia quanto modelos capazes de calcular a garantia física de cada usina, faltan- do apenas vontade e coragem de fa- zer esse aprimoramento e eliminar as distorções existentes e que se perpe- tuam”, acrescentou. O dirigente da CTG Brasil, empresa que conta, integralmente ou em parce- rias, com 15 UHEs e duas PCHs, lem- brou que o Brasil possui 200 GW, ou cerca de três meses de consumo, em re- servatórios de hidrelétricas o que lhe dá grande capacidade de inserção de eóli- cas e solares na suamatriz.“Se for criada uma taxa global de carbono sobre cada produto ou serviço combase nas emis- sões de CO2 na sua cadeia de produção oBrasil seráextremamente competitivo, comumamatriz energéticamuitomais limpa emais barata”, disse. SERVIÇOS ANCILARES O gerente de Engenharia e O&M da Cesp, Luis Alexandre Paschoalotto, entende que não seria adequado defi- nir um valor específico para a geração hidrelétrica, até pela subjetividade dos parâmetros que seriamnecessários pa- ra se fazer a distinção entre as diferen- tes fontes. “Oque se tem, de fato, é que a fonte de geração hidrelétrica, além da gera- ção de energia em si, presta outros ser- viços ao SIN e que atualmente não são especificamente remunerados”, disse, destacando os chamados serviços an- cilares. Privatizada em dezembro de 2018, a Cesp opera três UHEs, sendo a maior delas Porto Primavera (1.540 MW), no rio Paraná. Na avaliação do diretor de Estraté- gia eRegulaçãodaEngieBrasil,Marcos Keller,a adoçãodopreçohorário apar- tir de janeiro do próximo ano é funda- mental para valorar os serviços da hi- drelétrica,definindoumpreçode ener- gia que reflita precisamente o real cus- to de produção e entrega de energia ao consumidor final. Mas essa seria apenas uma etapa. “É necessário aprimorar tanto os mo- delos computacionais quanto a forma de elaborar as premissas utilizadas hoje nessesmodelos, alémde avançar na in- vestigação de uma formação de preço de energia a partir da oferta dos agen- tes”, diz Keller. O diretor da Engie, concessioná- ria, sozinha ou em parcerias, de 12 UHEs (6,1 GW), defendeu a revisão do atual modelo de valoração dos serviços ancilares, lembrando que alguns deles nem mesmo são remu- nerados e outros são remunerados com foco na recuperação de custos. Essa abordagem, na sua avaliação, “desestimula uma mobilização ade- quada de recursos”. n
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