Brasil Energia | Ed. 466 - Dezembro, 2020
Brasil Energia , nº 466, 1 de dezembro de 2020 35 Jerson Kelman Jerson Kelman é engenheiro, professor da Coppe-UFRJ, ex-presidente da ANA e ex-diretor-geral da Aneel MRE E MERCADOS DE ÁGUA O Mecanismo de Realocação de Energia – MRE foi concebido para funcionar como uma espécie de fundo de amparo mútuo das usinas hidroelétricas. Cada usina tem o direito de comercializar não a quantidade de ener- gia que efetivamente produza ao longo de um intervalo de tempo, que depende da hidrologia local, e sim uma percentagem da produção total das usinas do MRE, que é bem mais estável. A percentagem alocada a cada usina é proporcional à sua Garantia Física – GF, que mede a contribuição individual para o esforço coletivo de aten- der a demanda energética nacional em situação hidroló- gica adversa. Com esse arranjo, quando as usinas de uma particular região são afetadas por uma seca, são socorri- das por usinas das demais regiões. E vice-versa. Quando a quantidade de energia alocada a uma cer- ta usina for menor do que tiver vendido, terá que com- prar a diferença, pagando o preço do mercado de ener- gia, o PLD. A isso se chama de “risco hidrológico”. To- davia, nos últimos anos, a frequência com que os in- tegrantes do MRE tiveram que comprar energia para honrar seus contratos tem sido maior do que se pode- ria atribuir à variabilidade hidrológica. São falhas do MRE bem conhecidas, causadas pela implementação do mecanismo, não por sua concepção. Menos conhecidos são os “defeitos” do MRE com relação à atuação de seus integrantes na disputa pela água com outros setores usuários dos recursos hídricos, particularmente a irrigação. Quando a Aneel organiza, em nome da União, o certame para concessão do re- curso natural “potencial hidráulico” para a construção de uma hidroelétrica, cabe à ANA fazer a “declaração de disponibilidade hídrica”. Trata-se da previsão, ano a ano, do futuro uso consuntivo de água a montante da usina a ser construída. Cabe à União, por meio da EPE, calcular a GF da futura usina a partir dessa informa- ção. O vencedor do certame recebe automaticamente da ANA a outorga de direito de uso da água compatível com a declaração de disponibilidade hídrica. A outorga tem valor econômico para quem a rece- be porque oferece garantia (relativa, não absoluta) de acesso ao bem escasso. Todavia, o Direito não socor- re os que dormem ( dormientibus non succurrit jus ). E muitos proprietários de hidroelétricas têm dormido de touca, exatamente devido ao conforto que lhes é asse- gurado pelo MRE. Não reclamam, ou pouco reclamam, quando usuários da água a montante passam a utilizar água, com ou sem outorga, em quantidade superior ao estabelecido na declaração da ANA. Essa moderada combatividade pode ser explica- da pelo “efeito carona”, induzido pelo MRE: a receita da usina sob “ataque hídrico” não é em geral afetada porque a GF não é diminuída mesmo quando ocorre aumento do uso consuntivo de água à montante do empreendimento. Trata-se de situação análoga à que ocorre nos prédios onde há uma única conta de água dividida entre todos os condôminos: não há estímu- lo para uso parcimonioso da água. No caso das usi- nas hidroelétricas, o “efeito carona” causa degradação da segurança operativa e uma repartição incorreta da produção coletiva, com prejuízo para os demais inte- grantes do MRE. OPL 495/2017, emdiscussão no CongressoNacional, admite a comercialização de outorgas. Morganna Capo- deferro simulou esse instrumento econômico no caso da bacia do rio São Marcos, onde a cada ano aumenta o uso da água para irrigação, afetando a capacidade de produ- ção de energia elétrica em toda a cascata, da usina Bata- lha até Itaipu. Em sua dissertação de mestrado Potencial Econômico de Mercados de Água (COPPE, 2020), definiu a alocação ótima da água, que depende do custo margi- nal de operação (CMO), do preço de cada produto agrí- cola e do respectivo consumo d’água. Observou que em alguns anos o melhor uso da água foi no setor elétrico e em outros no setor agrícola. Conclusão: um mercado de outorgas permitiria a expansão da agricultura irrigada e alocaria a água de forma eficiente.
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