Brasil Energia | Ed. 467 - Fevereiro, 2021
100 Brasil Energia , nº 467, 1 de fevereiro de 2021 Wagner Victer Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo e ex-Conselheiro do CNPE. Escreve mensalmente na Brasil Energia. A FUGA DE NOVOS TALENTOS DA INDÚSTRIA DO PETRÓLEO Participo de grupos de discussão de engenheiros que se formaram na Universidade Federal do Rio de Ja- neiro (UFRJ) há mais de 35 anos e, não raro, constato que alguns, mesmo os mais experientes, afirmam que os combustíveis fósseis, em especial os derivados do petróleo, estão com data definida para o fim de uso. O crescimento de organizações voltadas para carros elétricos, como a Tesla; o anúncio de países europeus so- bre a adoção compulsória de veículos elétricos; e o desen- volvimento competitivo de fontes não convencionais para geração de energia, sobretudo a solar e a eólica, têm sub- sidiado afirmações quanto ao futuro da indústria do pe- tróleo como verdades absolutas. Essas afirmações desani- mam os jovens que pensam em ingressar nessa indústria. Há cerca de 40 anos, com a consolidação da produção offshore no Brasil, especialmente na Bacia de Campos, ainda sob monopólio estatal, a indústria do petróleo atraía talen- tos e fazia com que grandes empresas, como a Petrobras, a única que atuava no upstream no país, criassem turmas nas principais universidades do país, captando esses talentos. Recentemente, em conversa que tive com um dos professores do Instituto Federal Fluminense (IFF), de Cabo Frio (RJ), uma das poucas instituições a oferecer o curso técnico de Petróleo e Gás de forma integrada ao Ensino Médio, recebi a desalentadora informação de que a instituição pretendia descontinuar a oferta des- sa formação, substituindo-a por um curso técnico em Química, pois, teoricamente, traria maior atratividade e perspectivas para os jovens daquela região. Da mesma forma, vimos em edições do Enem/Sisu que o grau de procura pela graduação em Engenharia de Petróleo tem caído progressivamente. Um exemplo é a pontuação para acesso pelo Sisu 2020 dos cursos de maior demanda da tradicional Politécnica da UFRJ, como Engenharia de Produção (795 pontos) e Engenharia Me- cânica (789 pontos), já distantes do curso de Engenharia de Petróleo (752 pontos). Essa diferença de pontuação não é pequena, pois os números utilizam uma distribui- ção gaussiana de notas, na qual essa diferença absoluta representa muito mais do que um percentual linear. Como voltar a atrair jovens talentos para a indústria do petróleo se cenários negativos chegam diariamen- te à cabeça deles? Quebrar esse paradigma é um dos grandes desafios da Indústria do Petróleo no Brasil. Tenho um exemplo pessoal de falta de foco institucio- nal nessa sensibilização: em 2018 meu filho era aluno do curso técnico em Petróleo e Gás, no mesmo IFF citado e, como coordenador de um evento, o PETROIF, solicitou uma palestra à ANP, para que a agência apresentasse aos estu- dantes perspectivas sobre a indústria do petróleo. Lamen- tavelmente, seu pleito foi solenemente ignorado. Ou seja, a Agência, que seria um dos principais agentes a fomentar o interesse na indústria do Petróleo e Gás, não deu atenção à época, justamente para um dos poucos cursos que for- mava profissionais de Ensino Médio voltados para o setor. A falta de apoio para jovens que ainda estão na Edu- cação Básica, com o objetivo de despertar o interesse pa- ra o setor, merece reflexão por parte de diversos agen- tes, não só da ANP, mas de instituições como o IBP, EPE, MME e, em especial, pelas próprias indústrias do seg- mento.Aliás, um exemplo de sucesso para despertar inte- resse desde a Educação Básica é o adotado pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), na execução da Olimpíada Brasileira de Matemática para Escolas Públi- cas, que desperta talentos para as Ciências Exatas. Quando secretário de Estado de Educação, vi que, ao contrário de outros segmentos que procuravam a Secreta- ria para pedir apoio e para desenvolver projetos em parceria, a indústria petrolífera, com raras exceções, literalmente não possuía esse foco de aproximação ou esclarecimento. O futuro da indústria do petróleo e tudo que dela de- riva é fascinante, com extremo potencial. Mas é preci- so que os jovens percebam isso. Portanto, uma postura proativa e estratégias para atrair talentos são essenciais.
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