Brasil Energia | Ed. 468 - Abril, 2021

Brasil Energia , nº 468, 5 de abril de 2021 13 Marcelo Taulois Marcelo Taulois é engenheiro pós graduado em gestão, executivo, conselheiro e consultor de empresas na área de energia atuantes no Brasil e no exterior. ESG IS PROFITABLE? A partir dos anos 90, uma série de tendências impul- sionaram as empresas a transformar práticas e estraté- gias, exigindo das lideranças muita rapidez e adaptabi- lidade para obter o reconhecimento de consumidores e uma opinião pública cada vez mais atentos aos impactos sociais das estratégias de negócios. Tudo começou com o foco na qualidade dos produtos e dos serviços (Total Quality Managment, TQM). Depois, imperou a cultura da segurança, saúde e meio ambiente (Health & Safety & Environment, HSE). Seguiu-se a preocupação com ques- tões éticas, começando pela conscientização acerca da responsabilidade social (Corporate Social Responsibility, CSR) e culminando na impreterível era da governança. Até chegarmos ao momento em que outra sigla, ESG, tornou-se o Cálice Sagrado do mundo corporati- vo, justamente porque conseguiu incorporar todas as práticas anteriores, e muito mais: meio ambiente, so- ciedade e governança (Environment, Social and Go- vernance). Quando as ações são implementadas e se obtém a adesão dos stakeholders, o ESG transforma- -se na coluna vertebral que sustenta práticas de di- versidade, igualdade, criatividade, colaboração e com- petividade nas corporações. Um verdadeiro divisor de águas no mundo dos negócios. Entretanto, vale per- guntar: ESG é lucrativo? Os estudos recentes sobre o tema indicam que se trata de uma questão de tempo antes que o ESG se torne uma questão de sobrevivência para os negócios. Uma pesquisa, que analisou 2 mil empresas, entre 1970 e 2014, revelou uma correlação positiva entre a adoção de critérios de ESG nas decisões de investimentos e me- lhores resultados financeiros em 48% dos casos - ape- nas em 11% das empresas a correlação foi negativa e nas demais foi neutra ou indefinida. 1 Práticas de ESG também impactam positivamente a performance dos papéis das empresas nos mercados de capitais, uma vez que os investidores associam o me- nor foco em ESG a maiores riscos. Uma análise de 157 companhias listadas nas bolsas de valores entre 2014 e 2016 conclui que aquelas com ESG têm menos volati- lidade e melhor desempenho - especialmente as indús- trias de alimentos e de energia 2 . Outro achado impor- tante é que as economias emergentes são as que mais se beneficiam do ESG, por motivos associados à dimi- nuição de riscos por parte dos investidores e comprado- res. Dito de outra forma, entre as empresas situadas nos mercados emergentes, o ESG funciona como um criador de oportunidades, uma nova “vantagem comparativa”. Por fim, não se pode deixar de fora os possíveis efei- tos iatrogênicos do ESG, ou seja, o risco de que a ten- tativa de cura acabe causando uma doença - no caso, um novo tipo de dano financeiro. A corrida pelo Santo Graal por parte de negócios ansiosos para obter aces- so ao capital, ao crédito e à publicidade positiva, com- binada à dificuldade de implementação de metas am- biciosas, podem expor a crua realidade de que muitas empresas não dispõem de um mapeamento detalhado para alcançar um caminho para o compliance e para o cumprimento das promessas de ESG. E têm-se aí mais um argumento em favor de que “se você não comprar a ideia do ESG, ela vai te comprar”. Cada vez mais, ban- cos importantes, investidores e asset managers têm dei- xado claro como querem ver seus fundos empregados, e, ao mesmo tempo, os relatórios de Risk Managment têm aumentado o peso de fatores éticos e sustentáveis, fazendo com que as práticas de ESG tornem-se fácil e friamente quantificáveis nas avaliações. O caminho rumo ao ESG pode exigir um ritmo tem- porariamente disruptivo para as empresas, mas, even- tualmente, será um percurso que vai assegurar a vanta- gem competitiva e sobrevivência dos negócios, em um modelo sustentável, aliado a práticas sociais e à preo- cupação com o meio-ambiente. Sim, ESG is profitable! 1 Friede, Busch & Bassen (2015): “ ESG and financial perfomance: aggregated evidence from more than 2000 empirical studies”, Journal of Sustainable Finance and Investment, Vol.5, 2015 2 Kumar et al (2016) : “ESG factors and risk-adjusted performance: a new quantitative model” , Journal of Sustainable Finance and Investment, Vol. 6, 2016.

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