Brasil Energia | Ed. 468 - Abril, 2021
Brasil Energia , nº 468, 5 de abril de 2021 81 Wagner Victer Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo e ex-Conselheiro do CNPE. Escreve mensalmente na Brasil Energia. A INDÚSTRIA NAVAL EM SINGAPURA Ainda pouco conhecida em nosso país, Singapura é uma cidade-Estado insular no sudeste da Ásia, com- posta de cerca de 63 Ilhas, com aproximadamente 705 km2 e conhecida desde a década de 1980 como um dos “tigres asiáticos”. Lá se encontra, historicamente, um grande entreposto comercial, polo das rotas Euro- pa/Ásia e também de diversas atividades voltadas à in- dústria do petróleo, figurando como um dos maiores complexos de refino do mundo e, em especial, uma grande indústria naval. Nas últimas décadas, a indústria naval de Singapura se desenvolveu em torno das atividades portuárias, com elevada geração de empregos, chegando a cerca de 70 mil empregos diretos em 2019/2020 com foco no reparo naval. Também desenvolveu tecnologia especialmente vol- tada à construção e às conversões de plataformas para a indústria de óleo e gás, sob gestão direta do governo, que participa do apoio institucional, tributário e financeiro e do capital acionário dos grandes grupos lá instituídos. Os estaleiros locais, sob supervisão estrangeira, se desenvolveram rapidamente para executar atividades de construção naval e de construção de plataformas para a indústria do petróleo, como Semi Submersíveis e FPSOs. No início da década de 1970 ocorreu a naciona- lização da indústria, tornando-a verdadeiramente local. O advento dos computadores na década de 1980 trou- xe o CAD/CAM. Os estaleiros de Singapura aderiram rapidamente a esta nova tecnologia e os processos de trabalho foram racionalizados, dando origem a melho- rias na qualidade, na produtividade e na pontualidade. Com o Brasil, o relacionamento se inicia na década de 1990, no então governo Collor, quando um consór- cio da Odebrecht com o Grupo Fells é contratado pela Petrobras para a construção, em Singapura, da maior parte da unidade estacionária de produção tipo semis- submersível Petrobras XVIII (P-18). Ao fim da década de 1990, como secretário de Es- tado de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio de Janeiro, tive a oportunidade de me relacionar com em- presas singapurianas do setor de construção naval e offshore por conta do trabalho de estabelecer os prin- cípios do conteúdo local, viabilizando a atração para o Brasil dos dois então maiores players da indústria de construção naval de Singapura: o estaleiro Keppel- -Fells, que reativou Estaleiro Verolme, em Angra dos Reis, que se encontrava fechado, dando o nome de Brasfels, e a Sembcorp Marine (Jurong Shipyard), que se estabeleceu no então fechado Estaleiro Mauá, com o estaleiro Mauá/Jurong. A estratégia de atrair esses players de Singapura pa- ra o Brasil derivou de uma política de governo que esta- belecemos em 2000, sendo pioneira no país a filosofia do conteúdo local. O saudoso ministro de Minas e Ener- gia, Rodolfo Tourinho, promoveu a execução das plata- formas para os Campos de Barracuda e Caratinga, da Petrobras, o que fez com que os estaleiros de Singapura adotassem a estratégia de promover arrendamentos e parcerias com unidades de construções do país, espe- cialmente no estado do Rio de Janeiro. Hoje a indústria naval em Singapura está sob forte tensão por conta da pandemia. Os dois grandes gru- pos locais, Sembcorp Marine e Keppel Offshore Marine, apresentam resultados financeiros muito ruins. A Ke- ppel atualmente dá sinais de abandonar a construção de plataformas de petróleo e se orientar para o merca- do de sistema offshore de energia renovável. Já a Sem- bcorp Marine, estabelecida em 2000 e que teve como origem o Jurong Shipyard, investiu pesado em infraes- trutura, construindo um estaleiro moderno com nove diques para VLCCs, também está se reestruturando. A Sembcorp Marine possuiu participação total e parcial em vários estaleiros pelo mundo, como o Cosco da Chi- na e Estaleiro Jurong Aracruz no Espírito Santo. No cenário próximo, pelo que já se divulga na mídia internacional, o mercado volta a apostar numa fusão entre os dois grupos, que é uma possibilidade que sem- pre foi aventada no passado e que, agora, se apresenta como uma necessidade.
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