Brasil Energia | Ed. 469 - Junho, 2021

ENTREVISTA Mario Veiga 14 Brasil Energia , nº 469, 1 de junho de 2021 dos. Há questionamentos sobre quem pagará pe- la segurança do suprimento, como ficará o cus- to dos contratos legados e como essas mudanças em discussão se traduzem na tarifa e no preço da energia para os consumidores. A ideia é combi- nar essas variáveis de maneira a tentar entender como esses cenários implicam no custo final da energia para o consumidor. Fizemos um estudo semelhante no Chile, em que estudamos as con- sequências que a abertura poderia ter. No Brasil ficará pronto no início do próximo ano.  Muito tem se falado sobre hidrogênio verde e o pa- pel que o Brasil poderá ter no avanço dessa tecnologia. Como enxerga esse futuro? Ohidrogênio verde é uma aposta da União Euro- peia e de parte da Ásia. Como a União Europeia não tempossibilidade de produzir localmente, ela já ma- nifestou o interesse de importar. Ou seja, muitos pa- íses estão olhando isso com a possibilidade de criar hubs de exportação. Brasil, Chile, Peru, Costa Rica são alguns exemplos, sendo que o Chile está avan- çando e, inclusive, realizando road shows. Temos sido contratados por alguns países que estão ma- peando suas cadeias. O Brasil tem um caso interes- sante. Nossa matriz é muita limpa, podemos produ- zir hidrogênio da rede, 24 horas por dia, com fator de capacidade elevado. Além das renováveis que o Brasil possui, há outro elemento que pode alavancar a economia nacional: há uma aplicação imediata do hidrogênio na área de fertilizantes, sendo que o Bra- sil é importador do insumo, apesar de sua liderança no agronegócio. A produção de hidrogênio pode levar à produção de amônia, insumo básico para a produção de fertilizantes. A amônia ainda pode ser usada como combustível de navio. Temos algumas desvantagens, como a taxa interna de retorno do Brasil ser inferior à do Chile, mas estamos no páreo.  O Texas enfrentou uma grave crise de energia elé- trica neste ano, com prejuízos à população. Há uma li- ção a ser tirada dali? O caso do Texas não é diferente do que se viu na Califórnia. Duas das maiores economias dos Esta- dos Unidos, populações parecidas, com uma con- fiança exagerada nos mecanismos de mercado. Em ambos os casos, se prepararammal para os eventos extremos. No Texas, desmantelou-se o planejamen- to, caminho semelhante ao seguido pela Califórnia. A lição que fica para o Brasil não tem a ver com uso de termelétricas, como alguns disseram, e sim com o fato de que é preciso olhar o planejamento de forma mais abrangente, e que as mudanças climá- ticas já têm papel relevante no setor elétrico. O que se pode ver é que períodos secos estão se tornan- do mais secos, e os úmidos têm ainda mais chuvas. O futuro já chegou. Clientes nossos já começam a pedir análises sobre o impacto das mudanças climá- ticas nas vazões. Na Alemanha, se registraram cin- co dias sem vento para as eólicas, nos Estados Uni- dos, em um momento, se chegou a nove dias. É preciso pensar que o planejamento tem de olhar o todo, analisar casos de disrupção, planejar diferen- tes cenários em que esses momentos extremos se- jam pensados. Nesses cenários de estresse é preciso ter opções e formas de garantir o abastecimento. No setor financeiro, com a crise de 2008, os bancos passaram a fazer análises de solvência e testes de estresse. Isso tem de ser pensado no setor elétrico.  Aqui no Brasil a EPE, que faz o planejamento e cuja criação teve sua participação, tem preocupação com seu futuro financeiro. Isso deixa você preocupado? Preocupa-me muito a situação da EPE por- que ela se tornou ainda mais válida no momen- to atual, em que é preciso pensar no futuro. É preciso pensar estrategicamente, identificar

RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=