Brasil Energia | Ed. 469 - Junho, 2021

Brasil Energia , nº 469, 1 de junho de 2021 37 Wagner Victer Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo e ex-Conselheiro do CNPE. Escreve mensalmente na Brasil Energia. A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO COM JOE BIDEN: UMA VISÃO MAIS SUSTENTÁVEL É certo que políticas públicas se modificam constante- mente, no ritmo de seus protagonistas, sobretudo quando estas fazem parte do debate central do processo eleitoral e se caracterizam como a marca ou principal característica da proposta de gestão de um candidato. O desdobramento dessas políticas tende a contagiar toda a geopolítica mun- dial quando o país envolvido tem elevada representativida- de política e econômica. Um novo cenário surge para o setor petrolífero após a eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos.A essência desse cenário começa a se delinear e ganhará for- ça nos próximos anos, quando o principal foco de atuação deixar de ser o processo de imunização em massa da popu- lação americana contra a Covid-19 e passar a ser a indução de novos mecanismos para a retomada do crescimento. Fato é que a posição acirrada de Donald Trump sobre a pandemia gerou um claro movimento de polarização ame- ricana quanto à questão climática, levando os democratas a praticar uma postura mais sustentável, alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agen- da mundial adotada durante a cúpula das Nações Unidas (ONU), especialmente em relação ao Objetivo 13, que é Ação Contra a Mudança Global do Clima. Em paralelo às ações dos múltiplos Partidos Verdes da Europa, inicia-se um processo lento de descarbonização da indústria, ainda hesitante quanto a avaliar ações efetivas e concretas em diversas áreas, inclusive na produção crescen- te do shale gas (gás de xisto) americano, que estabeleceu parâmetros mais resilientes em relação ao crescimento da cotação do petróleo internacional, de maneira muito mais efetiva que a constante ameaça que paira sobre os combus- tíveis fósseis frente às fontes renováveis e ao uso de veícu- los elétricos. Recentemente, executivos das maiores empresas de pe- tróleo dos EUA se comprometeram a tomar ações de com- bate às mudanças climáticas, o que aponta para um corte de emissões globais significativas nos próximos 30 anos, e não somente no prazo anteriormente estabelecido em acordos internacionais, como 2030, hoje praticamente inatingível. A indústria do petróleo americano tem apoiado o retor- no ao Acordo Climático de Paris e está bastante alinhada com o que pensa a Conselheira Nacional do Clima da Casa Branca, Gina McCarthy, segundo a qual os planos de Biden para enfrentar a crise climática estão centrados em impul- sionar a recuperação econômica de forma equitativa, posi- cionando os EUA para vencer o século 21 e permitindo a criação de milhões de empregos sindicais bem remunerados nas comunidades americanas. Com isso, deixa claro que não há contradição entre a descarbonização, a economia mais limpa e a valorização da economia americana, além de afas- tar qualquer processo de conflito com a indústria petrolífera. A própria reunião da Cúpula do Clima, realizada em abril de forma virtual pela ONU, foi conduzida de forma colabo- rativa com gigantes do setor de combustíveis fósseis, tanto do trade comercial quanto de entidades como a American Petroleum Institute (API), além de grande companhias como ConocoPhillips, BP plc, Chevron Corp, Devon Corp, Royal Du- tch Shell e Exxon Mobil, indicando também que o governo de Joe Biden aplicará medidas efetivas para o retorno dos EUA ao Acordo Climático de Paris. Isso, certamente, se des- dobrará para outros acordos. Omovimento iniciado pelo governo americano, já no iní- cio da gestão de Biden, refletirá internacionalmente em ou- tros países participantes da cadeia do setor petróleo e na referência das suas matrizes, por meio de exigências regu- latórias que se equilibram com a postura americana e que não se configuram como fragilidades para suas vantagens corporativas, evitando o “vazamento de carbono” para eco- nomias emergentes como, por exemplo, a do Brasil. É importante observar a evolução deste tema nos Esta- dos Unidos, que terá impacto no Brasil pós Covid-19 e se transformará em uma missão importante das diversas cor- porações que atuam no setor, com reflexo na formação dos custos e no preço final do petróleo.

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