Brasil Energia | Ed. 470 - Agosto, 2021

Brasil Energia , nº 470, 1 de agosto de 2021 69 Paula Kovarsky Paula Kovarsky é engenheira com mestrado em Finanças e Head of US Office e diretora de Relações com Investidores da Cosan. Escreve na Brasil Energia a cada três meses O MILAGRE DA ELETRIFICAÇÃO Se o mundo acordou para a urgência de agir para reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, assus- ta ainda a forma generalista como muitas vezes a busca por soluções é tratada. A meu ver, existem algumas boas expli- cações para isso. A primeira delas tem a ver com desconhecimento so- bre a real dimensão do problema. Os desafios de conter as mudanças climáticas são gigantescos em todos os aspec- tos (científico, tecnológico ou financeiro) e variam de acordo com a diversidade das matrizes energéticas e das priorida- des socioeconômicas mundo afora. Alguns números ajudam a ilustrar. A eletrificação da frota leve americana custaria US$ 7.5 trilhões, sem contar o inves- timento em infraestrutura de geração de energia elétrica; na Europa, a conta chega a US$ 6.9 trilhões. No caso brasileiro, o custo seria da ordem de US$ 1.2 trilhão só na renovação da frota. Se convertêssemos todo o uso de combustíveis fósseis para transporte em consumo de energia elétrica, teríamos que aumentar a capacidade de geração do país em quase 50%. Precisamos de todas as alternativas disponíveis, e os bio- combustíveis terão um papel extremamente relevante nes- sa jornada. Estimativas apontam para demanda global de 3,5 bilhões de litros de biocombustíveis só para aviação em 2025, e isso representa menos de 10% do consumo de combustíveis deste mercado em 2019. Ao menos em tese, contra dados não há argumentos. Por que então tanto se fala no “milagre da eletrificação” em um país como Brasil, que já tem hoje uma solução provada como o etanol, que emite menos gases de efeito estufa que um carro elétrico, se compararmos toda a cadeia, incluindo a manufatura dos veículos e das baterias, além do consumo de energia elétrica? E isso num país onde as energias reno- váveis respondem por 83% da geração. Qual seria a justifi- cativa para priorizar a eletrificação de frota num país com tantas outras prioridades básicas? Muitos argumentam, de forma negacionista, contra uma tendência global. Alegam que todas as montadoras do mundo estão anunciando o fim da produção de carros a combustão ao longo da próxima década, e que, portan- to, se o Brasil não se mexer, voltaremos aos anos 1980, antes da abertura de mercado, com uma frota desatuali- zada e sucateada. Um carro elétrico não necessariamente precisa ser um carro com uma bateria como conhecemos. Um carro a hi- drogênio, que utiliza uma célula de combustível, é também um carro elétrico. A tecnologia de separação do hidrogênio por meio de reação química a partir de hidrocarbonetos co- mo carvão (hidrogênio cinza), gás natural (hidrogênio azul) e etanol (hidrogênio verde) já existe e vem avançando a pas- sos largos em termos de custo. Um carro movido a hidrogênio numa célula de com- bustível, extraído do etanol através de um separador ou “reformer” embarcado no veículo, já é uma realidade, sen- do possível utilizar toda a capacidade de produção e dis- tribuição deste combustível num futuro relativamente pró- ximo. A cereja do bolo: a estrutura e, portanto, a linha de montagem de um carro a hidrogênio e de um a bateria é praticamente a mesma, excluindo a “caixinha” que gera a energia, e o peso do “reformer” com a célula de hidrogê- nio é quase 10 vezes menor que o da bateria. Entendendo o tamanho do desafio, achar que existe uma solução única, uma varinha mágica que resolve o problema do aquecimento global no mundo me parece, no mínimo, uma simplificação. É preciso entender as particularidades da matriz energética e a vocação natural de cada país nessa jor- nada, sem diminuir, obviamente, o compromisso que precisa ser de todos. Mas apostaria um belo almoço que o Brasil vai pular direto do etanol, que no curto prazo resolve muito bem para a frota leve a questão de emissões de gases de efeito estufa, para o carro movido a hidrogênio verde. Saber aproveitar a combinação de duas de suas maio- res fortalezas - o agronegócio e a energia limpa - por meio dos biocombustíveis é um privilégio do Brasil, não uma negação!

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