Brasil Energia | Ed. 471 - Outubro, 2021
Brasil Energia , nº 471, 5 de outubro de 2021 33 Telmo Ghiorzi Telmo Ghiorzi é doutor em Políticas Públicas e engenheiro. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. PARADOXOS DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL O mundo passa por uma nova revolução industrial e mudança de paradigma técnico-econômico. Este tipo de descontinuidade habilita oportunidades para países emer- gentes realizarem avanços radicais em inovações e, por- tanto, em crescimento econômico. A indústria brasileira, entre elas a de petróleo e setores associados, tem os ingre- dientes para “surfar” essa onda e realizar esses avanços. Contudo, há paradoxos que precisam ser mais bem com- preendidos e tratados, pois as janelas de oportunidade fi- cam abertas por tempo limitado. Um dos paradoxos a ser compreendido diz respeito à velocidade da transformação digital no setor de Óleo e Gás (O&G). Apesar de o setor ser reconhecido por seu arrojo em desenvolvimento de inovações, pesquisas re- alizadas pelas maiores consultorias do mundo indicam que ele é um dos mais atrasados neste processo. Situa- ção similar é observada também no setor de Engenharia e Construção (E&C), com o atraso ainda mais acentua- do sendo confirmado por expressiva quantidade de es- tudos acadêmicos, além das constatações obtidas pelas consultorias. Estes setores estão intimamente relaciona- dos, pois, além de serem atividades realizadas localmen- te, a infraestrutura de produção de petróleo requer inten- sa atividade do setor de E&C. O atraso observado não é exclusivo do Brasil. O mundo inteiro o enfrenta. Ele é, todavia, provisório e ilusório. Há diversas iniciativas em curso em outros pa- íses, com o propósito de avançar na transformação di- gital em todos os setores industriais, inclusive O&G e E&C. O novo patamar de produtividade que decorre da Indústria 4.0 impõe a adoção de suas ferramentas co- mo condição de sobrevivência. A se perpetuar este atraso no Brasil, o potencial de avanços pode transformar-se em estagnação e retrocesso, com efeitos até mesmo sobre o crescimento da produção de óleo e gás. Exemplo extremo desse fenômeno pode ser observado no que ocorre com a Venezuela. Outro paradoxo a ser explorado refere-se ao capital inte- lectual. Há notícias recorrentes e simultâneas de que o Brasil enfrenta fuga de cérebros e de que faltam ao país profissio- nais qualificados para realizar os avanços da Quarta Revolu- ção Industrial. A solução trivial seria inverter esse movimen- to. Seria simples, se os cérebros saindo contivessem o mes- mo capital intelectual dos cérebros em falta. Embora uma feliz coincidência possa ocorrer em situações específicas, di- ficilmente a contabilidade geral fecharia. O Brasil precisa formar, com urgência, os profissionais com as competências necessárias para a transformação di- gital de sua indústria, incluindo os setores de O&G e de E&C. Porém, é preciso evitar que o capital intelectual a ser construído siga o mesmo destino dos cérebros hoje em fu- ga. Se o fazem, é porque encontram fora do país o abrigo e o retorno correspondente às suas qualificações. O que for- ça a conclusão de que não basta educação. Ela é condição necessária, mas insuficiente. Se não houver no país as con- dições para retenção do capital intelectual sendo formado, é provável que o Brasil passe a exportar o principal recurso de sua transformação digital. Esse indesejável paradoxo ainda não está ocorren- do, mas o risco está à espreita. Para reduzi-lo, evidências apontam para a necessidade de articular empresas e esta- dos e estimular exportação não apenas de petróleo, mas sobretudo de bens e serviços, incluindo serviços de E&C e da cadeia produtiva de O&G. A transformação digital, um imperativo indiscutível, parece ser naturalmente indutora de mudanças que podem levar o setor brasileiro de O&G e, por extensão, de outros setores econômicos, a serem ex- portadores de tecnologia, em vez de exportadores de ca- pital intelectual ou de produtos de baixo valor agregado. Contudo, a ameaça de que os paradoxos prevale- çam e impeçam avanços é robusta. Enfrentá-la requer compreensão profunda da dinâmica econômica da re- volução em curso e ações com robustez corresponden- te à ameaça.
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