Brasil Energia | Ed. 471 - Outubro, 2021
Brasil Energia , nº 471, 5 de outubro de 2021 57 Luis Eduardo Duque Dutra Luis Eduardo Duque Dutra é mestre em Planejamento Energético, doutor em Ciências Econômicas e professor adjunto da Escola de Química da UFRJ. Escreve a cada dois meses na Brasil Energia. A pandemia de Covid-19 acentuou, além da volati- lidade dos preços, a percepção do risco e da estagna- ção global. Mais importante: a crise sanitária abre uma década de incertezas e desafios. Ainda bem que existe ciência, que ajuda a distinguir risco de incerteza e, ao esclarecer conceitos, traz soluções para essas e outras crises. Risco é o que pode ser medido, tanto na probabi- lidade de ocorrência quanto no impacto, após ocorrer. Incerteza é o improvável, que não tem como ser extra- polado do passado. Depois de avaliado, o primeiro de- ve ser administrado, mitigado ou anulado, se possível. O segundo tem natureza sistêmica e é, acima de tudo, imprevisível. A reflexão é oportuna para a política ener- gética, ambiental e climática, assim como para o plane- jamento estratégico das empresas, instituições regula- doras e multilaterais. A virada do milênio prometia uma prosperidade que não se materializou. Sem contar 2008, não faltaram cri- ses financeiras, eventos climáticos extremos, grandes acidentes industriais, conflitos militares envolvendo po- tências hegemônicas, coups d’états em países estraté- gicos, ataques terroristas e, agora, cibernéticos. Esses fatores configuram um ambiente incerto, no qual só fal- ta uma crise nuclear. Na impossibilidade de medir risco de natureza tão diversa, é possível aferir sua percepção: ela é crescente. À volatilidade dos preços soma-se a instabilidade polí- tica e social no cenário mundial. Repetitivos, gradativos ou crônicos, quando se transformam em críticos, certos eventos são capazes de gerar crises sistêmicas, e elas não poupam setor da economia ou classe social. Do ponto de vista da política e do planejamento, a incerteza decorre da natureza estrutural das mudanças: conjugam energia, ocupação territorial, demografia, mi- gração, geografia, política, economia e sociedade, am- biente e clima, a banca e as finanças. As transformações estão, todas, interconectadas, em pleno curso, e ganha- rão velocidade nesta década. A economia de baixo carbono, as redes inteligentes, o compartilhamento dos bens, as plataformas digitais e os arranjos locais projetam um futuro radicalmente di- ferente, mas ainda capitalista, ao que tudo indica. De nossa parte, cabe notar que o maior risco é regulatório. Resumidamente, ele decorre de três fatores: a inconsis- tência temporal das políticas que visam o curto prazo, o descompasso entre a agenda regulatória e a crescente incerteza, além da obsolescência das regras frente à ra- pidez das mudanças. A resposta à pandemia, por mais notável que tenha sido obter a vacina em menos de um ano, não trouxe so- lução definitiva. Também pouco conforta frente à nature- za sistêmica do risco. Ao menos, não se viu nenhuma cor- rida aos bancos, ou o colapso das praças financeiras, ou a falência em cadeia de empresas, o que certifica a pru- dência keynesiana na gestão macroeconômica. No entanto, fora da ciência e da regulação da moe- da e das finanças (que, aliás, vão muito bem), não fal- tam motivos de preocupação: degradação ambiental, mudança climática, distribuição de renda, desigualda- de social… A ciência ensina que, com planejamento e medidas preventivas, é possível gerir o risco. Ocorrendo, cabe mitigar o impacto, com um plano de emergência. Ações, responsáveis, meios e protocolos deverão ser de- finidos de acordo com a melhor técnica. Pois bem. De imediato, é o que se espera da gestão da crise hídrica, do que fazer com o gás natural e de co- mo aproveitar melhor as reservas do pré-sal. RISCOS CRÍTICOS, SISTÊMICOS E REGULATÓRIOS: BREVE REFLEXÃO SOBRE A PANDEMIA
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=