Brasil Energia | Ed. 472 - Dezembro, 2021
110 Brasil Energia , nº 472, 6 de dezembro de 2021 POLÍTICA ENERGÉTICA Investir na produção de nitrogenados também significa destravar outras in- dústrias que usam o gás como matéria- -prima, como o metanol e o hidrogênio, além das indústrias de ureia e amônia – estas, além da produção dos interme- diários dos nitrogenados, possuem di- versas aplicações, como na mineração, na indústria farmacêutica, pecuária ou mesmo na produção do ARLA 32 (no caso da ureia). É importante ressaltar que o preço do gás também foi o vilão que fez a Cope- nor encerrar suas atividades no país em 2016. Hoje, o Brasil importa 100% do metanol, mesmo sendo o maior produ- tor mundial de biodiesel via rota metíli- ca – como no caso dos fertilizantes, um desvio estratégico. Deus é mesmo brasileiro? “Vocês acham que Deus é brasileiro? Não, ele é russo e ganha em rublo”. O autor da frase é Eduardo Daher, diretor executivo da Abag (Associação Brasilei- ra do Agronegócio), embora ele atribua a um professor da FGV. De quem quer que seja sua autoria, o importante aqui, destaca Daher, é ter em mente que o domínio russo é total – das maiores re- servas de gás natural do mundo ao clo- reto de potássio e ureia que chegam às propriedades rurais brasileiras. O executivo é cético em relação ao potencial competitivo brasilei- ro no segmento de fertilizantes. Para ele, não se trata apenas do gás natu- ral, mas também dos gargalos logís- ticos, velho conhecido do agro. Afi- nal, não basta produzir grandes volu- mes de ureia, é preciso disponibilizá-la ao mercado consumidor. Então, custo e competitividade devem estar lado a lado com a localização. Daher evoca o exemplo do cloreto de potássio: o insumo que vem do Cana- dá chega muito mais barato em Ubera- ba (MG) do que aquele explorado pe- la Mosaic Fertilizantes em minas sergi- panas. “Gosto muito, por exemplo, do que eu vejo no transporte ferroviário. Só que o trem não vai até a minha fazenda. Nós ainda temos muito dependência da logística para sermos competitivos no mercado de fertilizantes”, pontua. Em sua visão, a grande dependência do Brasil reside no cloreto de potássio, e não no nitrogênio, embora o país seja o quarto maior importador global de fer- tilizantes. Daher explica que as culturas da soja e do milho não demandam tan- to nitrogênio, já que ele é capturado no ar e convertido pela inoculação de suas raízes para alimentar o processo bioló- gico – isso se deve, em grande parte, à competência tecnocientífica desenvolvi- da pela Embrapa, explica. Por último, Daher diz estar preocupa- do em como a alta dos preços dos ferti- lizantes, que está em ebulição no mer- cado internacional por um desequilíbrio entre oferta e demanda, pode impactar a safra 2022/2023. “É no supermercado e na feira livre que nós vamos ver quanto custa, de fa- to, o fertilizante”, finaliza. n
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