Brasil Energia | Ed. 472 - Dezembro, 2021

Brasil Energia , nº 472, 6 de dezembro de 2021 13 Ieda Gomes Ieda Gomes é consultora independente e membro do conselho de administração de empresas internacionais de energia, infraestrutura e certificação. Escreve a cada três meses na Brasil Energia. POR QUE OS PREÇOS DO GÁS NATURAL ESTÃO TÃO ALTOS? No terceiro trimestre de 2021, os preços internacionais de gás natural atingiram níveis extremamente elevados. Em 7 de outubroopreçodomarcador asiático JKMatingiu$56,32/MM- Btu para entregas em dezembro, um aumento de quase 40% em um único dia, e mais de 100% em relação a setembro. O preço spot nomercado europeu,no hubTTF,atingiu $54/MMB- tu. Em janeiro de 2021 os preços internacionais tambématingi- ram um pico, mas bastante mais modesto quando comparado com outubro, com JKM chegando a $21/MMBtu, mas TTF pre- cificado a menos de $7/MMBtu. Em março de 2013, o preço do gás nomercado britânico atingiu umpico de $23/MMBtu. Um fator de alerta é que ao longo dos últimos cinco anos, a despeito de picos de inverno, os preços europeus raramente eram superiores a $10-12/MMBtu, pois a Europa era o mer- cado de última instância quando existia excesso de GNL no mercado internacional. Esse aumento de preços decorre de diversos fatores: um invernomuito frio no início de 2021 no Hemisfério Norte, oca- sionando a baixa nos estoques norte-americanos e europeus; a retomada da atividade econômica em2021, ainda reduzida, após a flexibilização das medidas restritivas no auge da pan- demia, com forte aumento da demanda de eletricidade; um verão quente no Hemisfério Norte, com aumento da deman- da para refrigeração, deplecionando ainda mais os estoques de gás; problemas de produção e manutenção emplantas de GNL e campos produtores de gás em diversos países. Alémdisso, no Hemisfério Sul, aArgentina precisou impor- tar volumes crescentes de GNL, incluindo a reativação do ter- minal de GNL de Bahia Blanca, por conta da redução da pro- dução de gás emVacaMuerta por problemas macroeconômi- cos, congelamento de preços aos consumidores e restrições às operações no auge da pandemia. No ano de 2021, a Argen- tina importou 56 carregamentos de GNL contra 28 em 2020. O Brasil também contribuiu substancialmente como aumen- to da demanda global de GNL. Em função da seca e depleciona- mentodos reservatórios da regiãoSudeste/CentroOeste–em08 de outubroo sistema contava comapenas 16,5%de sua capaci- dadedearmazenamento.Alémdisso,aparadaparamanutenção da plataforma deMexilhão,na Bacia de Santos, contribuiu para a reduçãodaofertadegásnacional,comconsequenteaumentoda importação de GNL, já que a Bolívia não tem entregadomais do que o volume contratual de 20MMm 3 /dia. Nomês deagostode2021oBrasil foi odécimomaior impor- tador mundial de GNL, com importações médias de 32MMm 3 / dia, segundo dados daAIE. Nos oito primeiros meses de 2021 o Brasil importou 5,7 bilhões de metros cúbicos, contra 3,2 bilhões demetroscúbicosemtodooanode2020.Eatendênciaédeque atéofimdoanoasituaçãocontinuecrítica,tantoemfunçãodasi- tuaçãohídricacomoemfunçãodospreçoselevadosdoGNL,com a entrada do inverno noHemisférioNorte. Cabe ainda destacar um ponto significativo sobre a ne- cessidade de um melhor planejamento da transição energé- tica. O Reino Unido tem investido pesadamente no comissio- namento de energia eólica offshore, que é mais cara,mas tem um fator de carga mais elevado do que as turbinas onshore, chegando a atingir 50-55% em algumas regiões. O Reino Unido foi no passado um grande produtor de gás natural, mas os reservatórios do Mar do Norte têm-se esgota- do e o país não possui capacidade significativa de armazena- gem de gás. Assim sendo, importa gás natural da Noruega e da Rússia, e tem ainda três terminais de importação de GNL. Em 2020, as energias renováveis (eólica, solar e biogás) con- tribuíram com 43% da energia gerada no país, contra 37% em 2019. No terceiro trimestre de 2021 a falta de vento oca- sionou um maior despacho de termelétricas a gás. Por exem- plo: em fevereiro de 2021, a geração a gás representou 36% do mix contra 26% do vento, enquanto que, em setembro, a participação do gás subiu para 42%, contra 18% do vento. No Reino Unido e no Brasil, a geração a gás tem sido vi- tal para evitar apagões, mas a preços elevados em função do desequilíbrio oferta-demanda. Se os sinais econômicos para a produção de gás forem retirados, sem soluções efetivas para armazenar eletricidade, o mundo ficará à mercê de preços vo- láteis de gás e de eletricidade.

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