Brasil Energia | Ed. 472 - Dezembro, 2021

Brasil Energia , nº 472, 6 de dezembro de 2021 75 Luis Eduardo Duque Dutra Luis Eduardo Duque Dutra é mestre em Planejamento Energético, doutor em Ciências Econômicas e professor adjunto da Escola de Química da UFRJ. Escreve a cada dois meses na Brasil Energia. Coautor: Fernando Antonio Vidon Giordano Fernando Antonio Vidon Giordano é Engenheiro Elétrico, formado pela UERJ e pós-graduando de Economia do Petróleo e Gás pela Escola Politécnica-DEI, UFRJ Se existem dúvidas quanto à transição energética, não dizem respeito ao sentido, mas à velocidade. Serão deter- minantes o passo da eletrificação, a universalização de seu acesso, a penetração dos novos motores e sua disseminação em aplicações produtivas. A questão não se resume à subs- tituição dos combustíveis e à mobilidade, mas, não se pode ignorar sua importância. Anualmente, as emissões somam cerca de 49 GtCO2 equivalentes, o transporte responde por um sexto e cerca de um décimo ocorre nas ruas e estradas. A mobilidade é, portanto, eixo central da política climática e simboliza o escopo da mudança por vir. Ela envolve os veículos de passeio, carga, pesados e ôni- bus que, hoje, encontram-se em estágios diferentes quanto à eletrificação. Para as embarcações navais e aeronaves, o retardo é maior e o uso dos combustíveis fósseis deve durar umpoucomais. Em compensação, amultiplicação de skates, patinetes, bicicletas e lambretas elétricas, além do comparti- lhamento e da articulação destes com trens urbanos, metrôs e veículos leves sobre trilhos, também movidos à eletricida- de, sugere uma solução nas metrópoles do século XXI. Existe urgência segundo a ciência. Devido à irreversibili- dade dos impactos, é indispensável ganhar velocidade, mas o arranque é recente. Ainda infante, a indústria não definiu nem seus regimes tecno-produtivos. Nos veículos de passeio e de carga leves, onde mais progresso se fez, a competição entre as alternativas (todo elétrico, plug in, mais ou menos híbrido,movido a biocombustível, ou hidrogênio...) sinaliza o estágio de desenvolvimento e o desafio. Mesmo nos países ricos, a paridade do custo total de propriedade com veícu- los a combustão só deve ser alcançada no final da década. A massificação, escala e queda do custo dependem da definição de modelos e padrões, assim como da construção de infraestrutura, o que exige longa maturação. Não é di- ferente em outros elos como a geração descentralizada, a armazenagem em novas baterias, a fabricação de hidrogê- nio, as redes inteligentes de distribuição e mais robustas de transporte de energia. Além de dar conta da intermitência eólica e solar, e espaço a outras fontes (maremotriz, geoter- mia e biogás), a oferta deverá satisfazer o consumo de ele- tricidade muito maior do que o atual. Na produção, os obstáculos são imensos. A eletricidade res- ponde por um quinto do consumo energético industrial na Euro- pa e apenas umoitavonos EstadosUnidos.Inexiste emcertos se- tores:no vidro,cimentoeminerais nãometálicos,as temperaturas são muito elevadas. Nos petroquímicos, papel e celulose, combi- nam-segeraçãodeenergia,calor deprocessoe transformaçãoda matéria-prima.Neles,não sedispõemdealternativaàs fontes fós- seis.Hámuita pesquisa e desenvolvimento para viabilizar,daqui a dez ou vinte anos,a eletrificação desses processos. Uma plêiade de soluções encontra-se em estágio proba- tório. Incluem-se o sequestro de carbono, o biocombustível de segunda geração, o hidrogênio verde, a célula combustível, a fusão do plasma, as miniusinas nucleares, as algas marinhas... São capitais para enfrentar o aquecimento. Entretanto, a des- peito do anúncio de ganhos extraordinários, do esforço de cientistas e novos projetos, a contribuição efetiva dessas inicia- tivas à matriz energética mundial restará marginal até 2030. Voltando aos veículos como ilustração final, quanto à ve- locidade da transição, cabe destacar a diferença entre os pa- íses: ela é gritante e serámaior quando nos deslocamos para a periferia. A Escandinávia liderar a adoção dos novos mo- tores não surpreende. Pode ser justificado pelas políticas pú- blicas e pelo poder aquisitivo, além do comportamento, que não se espera nos Estados Unidos, onde a preferência é pe- los SUVs; enormes devoradores de gasolina. Também não é o que se espera na Índia,Turquia, Nigéria ou no Brasil mercados largamente submotorizados.Neles, o elevado sobre-preço e amenor renda são obstáculos às vendas exponen- ciais dos novosmotores.DiferentedoqueocorrenaChina,édifícil pensar que, emqualquer umdeles, ocorrerá uma radical mudan- ça com a rápida adoção de veículos inteiramente elétricos.Antes disso, a periferia será palco para o sucateamento dos motores a combustão interna.Algoque ocuparáduas décadas pela frente e, aomesmo tempo,ressaltará a distância entre os países. A VELOCIDADE DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA E O DESAFIO DA ELETRIFICAÇÃO NA PERIFERIA

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