Brasil Energia | Ed. 473 - Fevereiro, 2022

Brasil Energia , nº 473, 1 de fevereiro de 2022 71 Jerson Kelman Jerson Kelman, engenheiro e doutor em Engenharia, é professor da Coppe-UFRJ e foi o principal dirigente da ANA, Aneel, Light, Enersul e Sabesp. Escreve a cada três meses na Brasil Energia. MUDANÇA CLIMÁTICA: MITIGAÇÃO OU ADAPTAÇÃO? Para quem se interessa por mudanças climáticas, reco- mendo leitura do recente e imperdível livro de Robert Pin- dyck (professor de Economia e Finanças da MIT Sloan Scho- ol of Management): Climate Future: Averting and Adapting to Climate Change (Oxford University Press, 2021). Pindyck usa análises científicas do IPCC para mostrar que há muito mais incertezas sobre os efeitos da acumula- ção na atmosfera de gases que causam efeito estufa do que uma pessoa comum, informada pela imprensa e pela mídia social, poderia supor. Ele explica que as incertezas raramente são explicadas pela mídia porque as pessoas em geral gos- tam das narrativas simples e assertivas, não das que envol- vam complexidade e imprecisão. É certo que a temperatura média daTerra está e continu- ará aumentando, mas não há conhecimento científico para prever o que ocorrerá em cada localidade do globo. Muito menos conhecimento para prever as consequências dessas modificações sobre as chuvas, as enchentes e as secas. Me- nos ainda para prever as consequências sobre a economia e a qualidade de vida das populações. Pindyck não é um negacionista da mudança climática. Ao contrário, ele acha que o assunto é sério e por isso de- fende que o problema seja corretamente enunciado para ser resolvido. Einstein dizia que “se eu tivesse uma hora para salvar o planeta, gastaria 59 minutos definindo o problema e um minuto resolvendo-o”. E qual o problema a ser resolvido? Com a tecnologia existente, a meta de limitar o aumento de temperatura em 1,5 ou 2,0 graus Celsius em relação ao período pré-indus- trial significa monumental esforço econômico.Ameta é mui- to desafiadora para os países ricos e não é justa para os pa- íses pobres. Ou seja, é quase certo que não será alcançada, a não ser que ocorra algum“breakthrough”. Por exemplo, a produção de energia por fusão nuclear. Significa que omundo deve“jogar a toalha”e desistir de controlar a emissão de gases que causam o efeito estufa? Certamente não! Pindyck defende a utilização de incenti- vos econômicos para diminuir as emissões,mas não acredita que será possível zerá-las. Por isso entende que é necessário, em paralelo, conceber iniciativas “adaptativas”para proteger as populações vulne- ráveis das consequências deletérias das mudanças climáti- cas. Por exemplo, a construção de diques para proteger as áreas litorâneas da elevação do nível do mar, como os ho- landeses fazem há séculos. Muitos ambientalistas discordam dessa linha de argu- mentação porque temem que os esforços dirigidos à adap- tação enfraqueçam as iniciativas voltadas para a mitigação (diminuição da emissão de gases). Porém, Pindyck não está sozinho. Por exemplo, o escritor dinamarquês Bjorn Lomborg defende argumentos semelhantes no livro “False Alarm”, publicado em 2020. É provável que, com o passar do tempo, digamos nos próximos 10 anos, o interesse por medidas de adaptação aumente significativamente em todo o mundo. Qual a implicação para o Brasil? No curto prazo, pouca coisa: devemos controlar o desmatamento da floresta ama- zônica para deixarmos de ser o patinho feio e voltarmos a ser o cisne ambiental, que produz mais de 80% de energia elétrica a partir de fontes renováveis e utiliza etanol para mover os automóveis desde a década de 70 do século pas- sado. Amédio prazo, devemos reconsiderar nossa atitude fren- te aos reservatórios de regularização. Provavelmente eles também mudarão de condição, de patinho feio para cisne, no Brasil e em outros países que necessitem controlar as consequências deletérias de secas ou cheias intensas sobre o abastecimento das populações, a produção de alimentos, a navegação e a produção de energia elétrica. A Aneel tem se posicionado corretamente no quesito energia elétrica ao estimular que os inventários de bacias hi- drográficas se tornem verdadeiramente participativos. É pre- ciso que os demais agentes públicos envolvidos no licencia- mento ambiental também se interessem em contrastar os efeitos locais com os efeitos globais.

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