Brasil Energia | Ed. 474 - Abril, 2022
Brasil Energia , nº 474, 13 de abril de 2022 73 Wagner Victer Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo do Rio de Janeiro e ex-Conselheiro do CNPE. Escreve mensalmente na Brasil Energia. RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS, UMA OPORTUNIDADE SUSTENTÁVEL PARA GERAÇÃO DE ENERGIA O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2031) oferece reflexões sobre ações para o futuro, em especial quanto a oportunidades energéticas associadas à sustenta- bilidade ambiental. Nesse contexto surge o aproveitamento dos chamados Resíduos Sólidos Urbanos (RSU’s), pouco explorados diante do potencial que temos para a geração de energia com base em origens como, por exemplo, o lixo e o esgoto. É importan- te destacar que desde 2010 existe um marco direcionado ao tema, que é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), além de um processo normativo de classificação de resíduos, fixado na NormaABNT NBR 10004:2004. Essa filosofia vai ao encontro de uma grande tendênciamun- dial e, além dos ganhos de sustentabilidade, há outros, como o alívio para os chamados aterros sanitários, muitas vezes não tão próximosdosgrandes centrosurbanos equegeramuma logística inadequada,comum fluxo significativo de veículos. De 2010 a 2020, a produção de lixo no país cresceu da ordem de 11%, com produção atual superior a 70 milhões de toneladas por ano e previsão de chegar em 2030 a 100 milhões de toneladas por ano. Estima-se que somente 50% desse lixo é direcionado aos aterros sanitários. Ainda segun- do estimativas, há um potencial de aproveitamento de 4 GWs para geração elétrica comos resíduos gerados no país, o que é superior ao parque de geração nuclear existente e em implan- tação nas usinas deAngra I, II e III. No âmbito do campo também já existe uma elevada dis- ponibilidade de resíduos agropecuários que,muitas vezes, têm sido utilizados e aproveitados em diversas localidades. A uti- lização do sebo bovino – muito usado na produção de bio- diesel, como também a própria vinhaça e outros produtos na produção do biogás – começam a dar passos importantes. Os RSU’s, especialmente o lixo e os produtos derivados do esgoto, têm um diferencial positivo para aproveitamento nos grandes centros urbanos, onde também há demanda elétrica significativa o que, logicamente, favorece esse tipo de geração. Durante o período emque fui presidente da Companhia Es- tadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), desenvol- vemos um projeto com a Coppe UFRJ, por meio do professor Luciano Bastos, para a construção, na Estação de Tratamento deAlegria, no bairro do Caju, de uma planta piloto na qual fa- zíamos a extração do biodiesel da chama escuma sobrenadan- te do esgoto, altamente rica em óleos, e também utilizávamos resíduos sólidos de esgoto (lodo), rico em compostos orgânicos, para a produção de energia. Hoje, esse lodo é qualificado co- mo adubo orgânico e aplicado emprojetos de reflorestamento. Na ocasião,oprojetodaCedae ganhou repercussãonacional por seupioneirismo.Investimos valores importantesparaqueessa planta piloto ganhasse dimensão e parâmetros comerciais para futuros sistemasmaiores.Tenho certeza de que a nova concessio- nária,aÁguas doRio,saberá dar continuidade a esse processo. Voltando as RSU’s: a produção de biogás, através de pe- quenos biodigestores distribuídos, também reduzirá muito o envio de componentes para lixões ou aterros sanitários, além de ser um produto muito rico no seu resíduo final para utiliza- ção como biofertilizantes. Os compromissos globais para redução de metano, assi- nados pelo Brasil durante a COP 26, estabelecem que esse processo não só é relevante como também substituirá algu- mas fontes de utilização do gás natural, como o gás natural veicular (GNV).Alémdisso, essas ações se alinhamaos Objeti- vos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, em espe- cial noTema 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis). O próprio PDE 2031, na sua versão disponibilizada em audiência pública, reconhece como sendo uma oportunida- de socioambiental estratégica o “aproveitamento energético de resíduos”, por ser uma chance de substituir fontes não re- nováveis e também por contribuir para a redução de emis- sões, além de aumentar a eficiência dos processos produtivos e a otimização em recursos de infraestrutura, o que permite um aproveitamento melhor dos recursos energéticos e, con- sequentemente, a amenização de impactos socioambientais. Grandes projetos de geração de energia no Brasil devem focar uma atenção especial para o aproveitamento dos RSU’s, que podemganhar escala como desenvolvimento de uma in- dústria local ao se inserirem em nossa matriz energética, tra- zendo ganhos em externalidades socioambientais bastante necessários para o futuro.
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=