Brasil Energia | Ed. 474 - Abril, 2022
8 Brasil Energia , nº 474, 13 de abril de 2022 ENTREVISTA FERNANDA DELGADO Mas agora a guerra ajuda a retirar a pecha de vilão do setor de petróleo, não? Sim, isso muda de figura. A indústria de pe- tróleo e gás passou a ser a grande vilã de todo o mercado nos últimos dois anos. De quatro semanas para cá, isso mudou de figura. Vo- cê deixa de vilanizar a indústria de petróleo e gás a partir do momento que a secretária de Energia norte-americana [Jennifer Granholm] entra numa sala com todos os produtores de petróleo do mundo, na Cera Week, e fala: ‘senhores e senhoras, produzam tudo, produ- zam o máximo que puderem e a gente faz a transição energética junto com isso’. Isso mu- da todo o cenário energético internacional. O próprio Fatih Birol, diretor da Agência Interna- cional de Energia, em 2021, lançava um rela- tório em que ele coloca que, entre 400 ações para se atingir o net zero, uma delas era o fim do esforço exploratório a partir de dezembro de 2020. E agora, em março de 2022, ele pe- de que a Opep libere a capacidade de produ- ção retida justamente por uma questão de se- gurança de abastecimento mundial. Isso com- prova que a gente não pode ser muito radical em nada, não pode vilanizar nenhum tipo de energético. Tem que haver um equilíbrio. Então a transição, apesar de necessária, não será um processo simples e célere, como de- fendem alguns? Acho que isso já era bem sabido. A tran- sição energética é um processo muito lento. Entre o ativista político e o dono da empre- sa de petróleo tem toda uma sociedade no meio, que tem que ser protegida, precisa en- tender o que é a transição e fazer parte da transição. E como você faz isso? Dando in- formação, trazendo a sociedade para dentro, chamando para o diálogo. O que a gente ten- ta fazer é, justamente, mostrar que o proces- so é muito lento. É só pegar o histórico das transições energéticas anteriores, da lenha para o carvão, do carvão para os hidrocarbo- netos (óleo e gás) e agora essa, que tem um mote socioambiental e não um mote econô- mico, você vai ver que todas demoraram mui- to tempo e que, na verdade, em alguns casos, o uso dos energéticos foi sendo somado, por- que conforme o desenvolvimento econômico avança, aumenta a demanda pelos insumos energéticos. É um processo lento, é um pro- cesso econômico, é um processo político, mas antes de tudo é um processo social. Tem que trazer a sociedade para dentro e ver o que ca- be no bolso da sua população. Há risco de redução no ritmo da transição energética? Não acredito. Não vejo o processo se acele- rar e nem se arrefecer. Independente do tempo de duração da guerra? Independente do tempo. As coisas vão acontecer em paralelo. Vejo que os discursos mudam, mudam as perspectivas e as narra- tivas, mas os investimentos em energias re- nováveis não serão arrefecidos, uma vez que desde o início do ambiente de pandemia você conseguiu entender que os renováveis tam- bém são negócios. Deixaram de ser vistos co- mo um hedge ao mercado de óleo e gás e hoje são business. Toda a indústria de sustentabili- dade hoje é muito rentável economicamente. Então você consegue separar isso, o que ga-
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