Brasil Energia | Ed. 476 - Agosto, 2022

Brasil Energia , nº 476, 1 de agosto de 2022 35 Jayme Buarque De Hollanda Jayme Buarque de Hollanda é engenheiro eletrônico e estatístico, pós-graduado em sistemas de controle e presidente do Conselho Diretor do INEE. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Na virada do século as montadoras de carros brasilei- ras, no lugar de motores otimizados para o etanol, adota- ram motores flex. Essa troca é hoje a principal barreira ao uso eficiente do etanol no Brasil, um contrassenso num momento em que os combustíveis de fonte renovável são prioritários. Felizmente isso pode mudar. Para reduzir a dependência da importação de petró- leo, os EUA aprovaram, em 1988, o “Alternative Motor Fuels Act (AMFA)” com incentivos à produção de carros que substituíssem gasolina por etanol de milho produ- zido nos EUA. O exemplo do Brasil foi importante, pois aqui circulavam 5 milhões de carros a etanol com exce- lente aceitação e desempenho. Além de diminuir o de- sequilíbrio cambial, a baixa emissão do motor a etanol diminuiu a poluição crônica da cidade de São Paulo. Como a produção e a distribuição de etanol nos EUA ainda tinham que ser desenvolvidas, a solução foi usar um motor “flex” que usa gasolina ou etanol quase puro (E85: 85% de etanol e 15% de gasolina). Para ser efi- ciente com a gasolina, porém, esse motor é necessaria- mente ineficiente com o etanol. Passadas três décadas da legislação que criou a AMFA, hoje circulam pouco mais que vinte milhões de flex nos EUA, mas apenas um milhão usam regulamen- te E85, concentrados nos estados produtores de etanol, onde é mais barato. A proporção de etanol no E85 tem sido reduzida e pode ser de apenas 51%. Consideran- do o subsídio por tantos anos, a substituição de etanol por gasolina foi ínfima. A verdadeira revolução do etanol nos EUA ocor- reu a partir de 2000, quando decidiram substituir 10% da gasolina por etanol para aumentar a octa- nagem do combustível fóssil e reduzir emissões. O etanol substituiu produtos poluentes e tóxicos, como o chumbo, hoje proibidos. Como consequência, em vinte anos, os EUA se tornaram os maiores produto- res de etanol do mundo. Voltando ao Brasil, quando o preço da gasolina au- mentou muito na virada do século tentei comprar um carro a etanol. Nas concessionárias os vendedores, que só tinham carros novos a gasolina, faziam um discurso ensaiado contra o etanol: “combustível fraco, tem até água!”; “o tanque enferruja!”; “não pega no frio”; “se sobe o preço do açúcar, falta etanol!”; etc. A política do etanol estava abandonada à própria sor- te; a agência para regulamentar os combustíveis criada em 1998 foi chamada “Agência Nacional do Petróleo”. O etanol não recebia a atenção adequada pois era a única alternativa viável desenvolvida para substituir o petróleo. As montadoras não modernizaram os motores a eta- nol, que teriam melhorado a performance com a ignição e injeção eletrônicas. Tinham know-how para tanto, mas a partir de 2003 preferiram usar o flex. Apesar do péssi- mo desempenho com o etanol, esses flex foram um suces- so de venda. A solução “meia-sola” do flex foi favorecida pelo baixo preço do etanol. Motoristas dos flex passaram a definir o combustível usando a premissa de que a auto- nomia do veículo com etanol era 70% daquela proporcio- nada pela gasolina.A inadequação do motor flex passou a ser percebida como um defeito do etanol e acabou aceita, inclusive pelos produtores do combustível. Soluções energeticamente ineficientes, porém, são fatalmente atropeladas pelas eficientes. Por isso ouso prever a volta do uso eficiente do etanol. Tinha pou- ca esperança até que uma montadora brasileira anun- ciou o lançamento de carros a etanol com consumo por km igual ao do mesmo modelo a gasolina. Não levou adiante, mas o motor existe. Pode interessar, por exem- plo, aos milhares de motoristas de aplicativos que ope- ram só com etanol e têm o combustível como principal custo. Um motor otimizado para o etanol não é com- plicado. Se não ressurgir no Brasil pode aparecer em Nebraska, Iowa ou outro Estado produtor de milho dos EUA. É esperar para ver. MOTOR FLEX: O BRASIL, DE INSPIRADOR A VÍTIMA

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