Brasil Energia | Ed. 476 - Agosto, 2022
34 Brasil Energia , nº 476, 1 de agosto de 2022 Paula Kovarsky de hectares enquanto a cana-de-açúcar representa apenas 5 milhões (gráfico 1). Além disso, o cultivo de cana tem o maior rendimento de etanol por hectare plantado (gráfico 2). Por mais que haja associação da produção de biocombus- tíveis com a diminuição da produção de alimentos ou supres- são da vegetação nativa emoutras áreas,isso acontece predo- minantemente em países europeus. No Brasil não há evidên- cias de competição significativa entre produção de biocom- bustíveis e alimentos a ponto de prejudicar o abastecimento, de acordo com relatório publicado peloWWF em 2021 sobre a produção sustentável de biocombustíveis no Brasil. Outro ponto de vantagemsobre uso da terra:no Brasil,ape- nas 1% da área total do país é utilizada para plantio de cana- -de-açúcar (MAPBIOMAS,2020), sendo que esta parcela é sufi- ciente para suprir 19%da matriz energética nacional na forma de etanol ou bioeletricidade (BEN, 2021) e, ao mesmo tempo, posicionar o Brasil comomaior produtor mundial de açúcar. Temos um potencial incrível quando pensamos no futuro e na possibilidade de aumentar a produção de biocombustíveis até 2030, mesmo considerando como disponível apenas áreas degradadas ou de baixa produtividade (pastagens). O aumento de produtividade da pecuária brasileira poderia libe- rar cerca de 35 milhões de hectares para outros usos sem qualquer pressão sobre desmatamen- to de vegetação nativa. Se subtrairmos a quan- tidade necessária para a demanda de alimentos, ainda restam cerca de 25 milhões de hectares para a produção de biocombustíveis, suficientes para quase triplicar a produção atual de etanol de 1ª geração (sem considerar ou- tros potenciais, como cogeração de energia, biogás, E2G etc.). Não à toa, o European Joint Research Centre (JRC) considerou o etanol de cana-de-açúcar como tendo baixo risco na mudança indireta do uso da terra (iLUC). Mas as vantagens da cana-de- -açúcar como matéria prima para produção de biocombustíveis vão muito alémda pouca área compro- metida para a sua plantação ou o seu rendimento.A cana é de longe a planta mais eficaz na conversão de energia solar em carbono e tem uma das melhores pegadas de car- bono do mundo dentre as tecnolo- gias atuais de primeira geração,segundo o gráfico a seguir. Resumo da ópera: o etanol de cana-de-açúcar é muito eficiente, tem produção rastreável, baixa pegada de carbo- no e seu possível impacto na cadeia de alimentos é pouco relevante. Ainda, os resíduos gerados no processo produti- vo possibilitam dobrar a produção em bases energéticas ao somarmos cogeração de energia elétrica, E2G, biogás e ou- tros possíveis aproveitamentos na medida que avançam tec- nologias como biobunker e SAF. Há ainda a possibilidade de se evoluir com o hidrogênio contido na molécula do etanol. Deveríamos focar em separar a cana dos grãos, valorizar as vantagens competitivas do nosso etanol e fortalecer esse biocombustível como ferramenta de segurança energética em meio ao conturbado cenário internacional. Mas, enquanto isso o governo brasileiro segue flertando com a possibilidade de reduzir a competitividade do etanol e desestimular sua produção e seu consumo. Acorda Brasil! Fonte: AMI, OECD, FAO, USDA, Oil Word (UFOP) Bordonal et al. (2018); Neves et al. (2020).
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