Brasil Energia | Ed. 476 - Agosto, 2022

Brasil Energia , nº 476, 1 de agosto de 2022 33 Paula Kovarsky Paula Kovarsky é engenheira com mestrado em Finanças e VP de Estratégia e Sustentabilidade da Raizen. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. SEPARANDO O JOIO DO TRIGO, OU A CANA DOS GRÃOS O etanol de cana-de-açúcar é muito eficiente, tem pro- dução rastreável, baixa pegada de carbono e seu possível impacto na cadeia de alimentos é pouco relevante; deverí- amos valorizar as vantagens competitivas e fortalecer esse biocombustível como ferramenta de segurança energética O reconhecimento global do papel dos biocombustíveis na descarbonização tem crescido exponencialmente à me- dida em que entendemos o tamanho do desafio e que não existe uma solução única para a questão das mudanças climáticas, especialmente nos chamados “hard-to-abate- -sectors” - setores cujo caminho para redução de emis- sões é inviável ou desconhecido, como aviação e navega- ção, por exemplo. Mas a guerra Rússia-Ucrânia exacerbou discussões importantes sobre a urgência e o impacto das ações relacionadas às mudanças climáticas. O aumento dos preços de petróleo e seus derivados, e seu impacto inflacionáriomundo afora, tem servido de argumento para uma potencial reversão na agenda global de descarbo- nização.Argumentos extremos, típicos de momentos de crise, certamente encontrarão equilíbrio mais cedo ou mais tarde. É clara a necessidade de planejar uma transição energética de tamanha proporção de forma ordenada, partindo de con- ceitos básicos como evitar a concentração de recursos críticos em um único supridor – a meu ver a tese da diversificação da cadeia de fornecedores na verdade representa uma oportuni- dade para as energias renováveis em geral e os biocombustí- veis em particular. No fim, seja porque as medidas de arrocho financeiro dos bancos centrais mundo afora com intuito de conter a escalada da inflação inevitavelmente terão impacto na demanda, ou porque a guerra em algum momento termi- ne, os preços de energia cederão. Mas outra questão importante que ganhou atenção inter- nacional por conta da tensão naUcrânia e precisa ser conside- rada quando falamos dos biocombustíveis é a possível com- petição comalimentos.Nesse debate a discussão está relacio- nada a qual deveria ser o uso mais adequado da terra, consi- derando que o crescimento da produção de biocombustíveis impactariam negativamente na capacidade global de atender à crescente demanda por alimentos. Sempre argumentei que a transição energética e as soluções de descarbonização pre- cisavam ser adequadas às questões socioeconômicas de cada região, tendo em vista as prioridades de cada país.A competi- ção com alimentos é sem sombra de dúvida um tema impor- tantíssimo a ser levado em consideração. Daí a colocar todos os biocombustíveis no mesmo balaio me parece tão simplista quanto acreditar que é possível resolver a questão das mu- danças climáticas com uma solução única. Para começo de conversa, é preciso separar as chama- das 1ª e 2ª gerações de biocombustíveis. A 1ª geração en- globa todos os biocombustíveis produzidos a partir de um cultivo agrícola e que pode ser usado para produzir ali- mentos (cana-de-açúcar, milho, trigo etc.). Já tudo aquilo que é produzido a partir da biomassa residual (o bagaço da indústria ou a palha que sobra no campo depois da co- lheita) é classificado como um produto de 2ª geração. Na 2ª geração, portanto, não há competição com ali- mentos, uma vez que esses biocombustíveis são inclusive reconhecidos globalmente como um produto diferenciado de alto valor agregado por não demandar um único hecta- re adicional de terra plantada, além de representar a ino- vação e a circularidade que o mundo precisa. O etanol de segunda geração (E2G) produzido de maneira pioneira pe- la Raízen é um exemplo desse tipo de biocombustível, as- sim como o biogás produzido a partir da vinhaça e torta de filtro também produzido pela empresa e assim como todos os outros produzidos a partir de óleo de cozinha usado, li- xo urbano, dentre outros resíduos. Entretanto, mesmo dentro da 1ª geração existem dife- renças muito relevantes. Óleos de soja e palma dominam a produção global de biodiesel, enquanto cana-de-açúcar e milho dividem os holofotes quando o assunto é etanol. É aí que precisamos qualificar o debate. A Ucrânia é o sexto maior produtor de milho do mundo, gerando o temor de desabastecimento que impulsionou os preços em mais de 20% desde o início da guerra, dessa e de outras commodities agrícolas produzidas em áreas en- volvidas no conflito. Demorou pouco para que proliferas- sem as manifestações anti-biocombustíveis de 1ª geração, alegando que estes são causadores de pressão nos preços globais de alimentos. Essa tese pode até ser relevante para os grãos. Mas no caso da cana-de-açúcar a história é bem diferente. Vamos aos fatos: Apenas 7% da área agricultável global é dedicada a pro- dução de biocombustíveis, totalizando, para o mundo inteiro, 81,6 milhões de hectares – uma área um pouco maior que o estado do Texas. Desse total, milho e soja somam 55 milhões

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