Brasil Energia | Ed. 476 - Agosto, 2022

Brasil Energia , nº 476, 1 de agosto de 2022 53 Magda Chambriard Magda Chambriard é engenheira, mestre em Engenharia Química e pesquisadora da FGV Energia. Escreve na Brasil Energia a cada quatro meses. INVESTIMENTOS PÚBLICOS DE MUITO RETORNO? QUE TAL O PLANO PLURIANUAL DE GEOLOGIA E GEOFÍSICA DA ANP? Recentemente a Petrobras anunciou descoberta na área de Alto de Cabo Frio Central. Trata-se de um poço perfurado no pré-sal, que atingiu reservatório de grande espessura e boa pro- dutividade. Uma ótima notícia para o Brasil e mais um sucesso do Plano Plurianual deGeologia eGeofísica (PPAG&G) daANP. Do PPA G&G saíram também as descobertas dos campos de Búzios e Mero (realizadas pelos poços ANP-1 e ANP-2A), duas das maiores descobertas do país, dentre outros retornos. Vamos aos fatos. Mero foi a última grande descoberta comercial do Brasil, na área de Libra, licitada em 2013 com poço perfurado, testado e óleoprecificadosegundoanálise realizadaemlaboratóriodaANP. Foi uma ação inédita, com vistas amostrar aomundo, que ainda desconfiava,a realidadedopré-sal.Deucerto,no1º leilãoobônus de assinatura foi alçado à casa dos R$ 15 bilhões. Era a primeira vezqueos leilõesdaAgênciaatingiamacasadosbilhões.Oresul- tado foi tal que aGuiadeRecolhimentodaUnião (aGRU),usada para pagamentos aos cofres públicos, teve que ser alterada.Até então ela só permitia o pagamento demilhões de Reais. Curiosidades a parte, e voltando ao PPA G&G, a ideia era adquirir dados e informações nas bacias sedimentares brasi- leiras para reduzir o risco exploratório até que as empresas se interessassem por essas áreas. Havia clareza de que os inves- tidores não aceitariam o risco absoluto. Seria preciso reduzi- -lo para atrair investimentos, fossem eles estatais ou privados. Com esse propósito, o PPA G&G foi inserido primeiramen- te no Plano Piloto de Investimentos (PPI) e a seguir no Pla- no de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Através dele foram contratados aerolevantamentos, levanta- mentos sísmicos e geoquímicos e até perfurados poços em parceria coma Petrobras.Os resultados foram inquestionáveis. A primeira área a motivar esses investimentos foi a Bacia do Parnaíba (MA, PI eTO). O resultado veio em pouco tempo: áreas até então desacreditadas foram disputadas nos leilões daANP e, atualmente, a produção de gás doMaranhão faz da Eneva amaior produtora terrestre do país embarris equivalen- tes, salto importante para que a empresa alçasse novos voos. No bojo do PPA,foramrealizados investimentos de norte ao sul do país, incluindo análises geoquímicas na margem equato- rial brasileira e na plataforma continental ao sul do país. Em to- das as áreas identificou-se indícios de hidrocarbonetos. No âmbito desses estudos surgiu a ideia de se realizar um le- vantamentosísmiconoAltodeCaboFrio. Seriaumlevantamento 3D de 10.000 km 2 , emuma área considerada pouco atrativa pa- ra a pesquisa petrolífera. Nesse momento, era comum ouvir que a região era improdutiva: oAltodeCabo Frio,comooprópriono- me diz,é FRIO!AANP insistiuna contrataçãodo levantamento.A ideia inicial de se licitar evoluiu para uma ação não orçamentária do PAC (aANP conseguiu que o mercado assumisse esse levan- tamento, nos moldes de levantamentos especulativos regulados pelaAgência). Mais tarde, as áreas deAlto de Cabo Frio Central e Oeste atingirambônus milionários nos leilões daANP.Mais um retorno inquestionável do programa. Dentre os inequívocos resultados até então alcançados, há um específico que ficou pendente de conclusão mais apro- priada: o entendimento do sistema petrolífero da Bacia dos Parecis, no Estado do Mato Grosso. Essa bacia não contava nem com carta estratigráfica. A ANP a confeccionou. Alguns levantamentos foram feitos na área até a perfuração do poço ANP-06, que encontrou mais de 200 m de coluna intercalada com gás, comprovando a importância de se prosseguir com esses estudos. No imaginário dos exploracionistas daAgência passava a seguinte pergunta: e se houvesse tight gas no Ma- to Grosso para contribuir com o desenvolvimento regional? Em geral, assumia-se como correta a percepção do geólo- go americanoWalter Link, que chefiou a área de exploração da Petrobras entre 1956 e 1961: o petróleo estaria no mar. Mas e se o gás não associado estiver em terra, nas bacias interiores? Com esse histórico, espera-se que o Estado entenda a im- portância dos investimentos exploratórios públicos nas novas fronteiras brasileiras, ora descontinuados.Há centenas de km2 de áreas praticamente inexploradas. Batize-se da forma que se melhor entender. Seja com que nome for, é importante ter em mente que se o Estado não o fizer, certamente o “merca- do” não o fará, e um potencial imenso de recursos petrolífe- ros e gasíferos ficará à margem de qualquer possibilidade de aproveitamento em prol do desenvolvimento do país.

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