Brasil Energia | Ed. 477 - Setembro, 2022

Brasil Energia , nº 477, 20 de setembro de 2022 35 Wagner Victer Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo do Rio de Janeiro e ex-Conselheiro do CNPE. Escreve mensalmente na Brasil Energia. PERSPECTIVAS PARAOHIDROGÊNIONOBRASIL Para aqueles que fazem parte do setor de energia, espe- cialmente do petróleo e do gás, o hidrogênio surgiu como uma grande novidade, como um novo Nirvana energético. No entanto, essa perspectiva certamente requer mais estudos quanto à real perspectiva, viabilidade e potencial dessa fonte. O hidrogênio verde é assim nominado por ser um com- bustível produzido com um grande aporte de energia de fontes renováveis, como é o caso da eólica offshore. No entanto, essa pode ser uma análise míope, já que mes- mo plantas de geração renovável possuem uma pegada de carbono em sua construção. Assim, se a produção do hidrogênio verde possui uma eficiência baixa (Round-Trip Efficiency de 40% no melhor cenário da atualidade), haverá uma pegada de carbono maior, mesmo com a energia sendo totalmente renová- vel, já que o número de usinas alimentando essa produção precisará ser comparativamente maior. Demaneira bastante acertada,oCNPE emitiu a Resolução nº 6 de 23 de junho de 2022, instituindo o “Programa Nacio- nal doHidrogênio”e criando tambémo seu“ComitêGestor”. Esta Resolução tem importantes e oportunos objeti- vos, como o desenvolvimento do mercado competitivo para o hidrogênio, a busca de sinergias e a articulação com outros países, além do potencial reconhecimento da contribuição para a indústria nacional e logicamen- te sinergia econômica com outras fontes. Ela ainda esta- belece critérios para o melhor planejamento nacional e institui o Programa Nacional com seis eixos básicos pa- ra desenvolvimento que são: o fortalecimento das bases científico e tecnológicas, a capacitação em Recursos Hu- manos, a integração com planejamento energético, a de- finição de um arcabouço legal e regulatório normativo, a abertura e o crescimento do mercado e competitividade e também a cooperação internacional. Fica claro que o hidrogênio pode ter grande potencial como um dos vetores energéticos em uma matriz de baixo carbono. Porém, há de se considerar os desafios e impac- tos perante outras alternativas, onde também podemos ter vantagens comparativas. Outras fontes têm viés de crescimento também na linha da descarbonização da Matriz Energética, como o sistema de “Energia Solar associado a Baterias” – tema, aliás, que tenho conversado com jovens estudantes de Engenharia, que já co- meçam a fazer trabalhos de iniciação científica e que parece que vai requerer também uma atenção especial do CNPE. O hidrogênio pode ser produzido por várias rotas mas é limitado quanto ao nível de capacidade de mistura a sis- tema de gás natural existente, requer muita energia no transporte que não seja pelo modal dutoviário. Um per- centual acima de 10% de hidrogênio pode danificar de forma permanente os gasodutos, e seu transporte em lar- ga escala na forma líquida por carretas requer um elevado resfriamento e consome muita energia. Além disso, na eletrólise para a produção de hidrogênio verde, a água precisa passar por um processo caro de trata- mento, o que, no caso da água doce é um recurso extrema- mente limitado no mundo.A alternativa, que seria a água sal- gada, é um processo ainda mais caro, e limitaria a produção de hidrogênio às regiões costeiras, amplificando aindamais os desafios de supply-chain. Por outro lado, começam a surgir oportunidades, especial- mente na aplicação da verba de P&D pelas petroleiras como por exemplo o projeto desenvolvido pela Shell no Porto doAçu. Observo, portanto, uma discussão ainda bastante rasa em relação ao tema do hidrogênio, emespecial quanto a seus po- tenciais e suas melhores aplicações em um país com dimen- sões continentais como o Brasil, com oferta muito significati- va de outras fontes. Mesmo em sintonia com os compromis- sos internacionais, não há dúvida de que pode haver melhor aproveitamento dos hidrocarbonetos aqui produzidos, espe- cialmente diante do elevado nível de injeção do gás natural. Mais atrativo na lógica econômica, o gás também traz um potencial para redução de emissão, como no uso vei- cular (GNV), onde já se consegue resultados bastante sig- nificativos na redução de emissões em relação aos líquidos derivados de petróleo. Assim, na análise do planejamento energético, é mister que jamais se esqueça dos custos e, acima de tudo, das alternativas.

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