Brasil Energia | Ed. 478 - Dezembro, 2022
16 Brasil Energia , nº 478, 1 de dezembro de 2022 Osmani Pontes do e por isso a Petrobras tem que vender no mercado interno a um preço que seja igual ao custo de oportuni- dade de a empresa vender no exterior seu produto. Pa- ra manter essa lógica de mercado, invertendo o cálcu- lo, é preciso, portanto, de fato exportar óleo refinado, o que demanda a construção de refinarias, por meio da expansão de investimentos e importações tão substan- ciais que são capazes de inverter resultados no balanço de pagamentos do país. Para mudar a PPI e transformá-la em PPE é preciso aumentar substancialmente a taxa de investimento da companhia e se isso não for feito via redução da parce- la de lucros e dividendos distribuída, será feito via au- mento do endividamento, o que contraria os atuais cri- térios usados pela empresa. É preciso entender isso pa- ra ser acionista da Petrobras. Trata-se de uma empresa que atua em um setor de duration de mais de 15 anos com o ROE (return of equity) atual tendo sido desenha- do em 2006 quando o mercado torcia o nariz para os elevados investimentos no pré-sal e hoje, graças àquele investimento, saímos de uma produção de 700 mil bar- ris por dia para mais de 3 milhões de barris por dia. Sem esse petróleo do Pré-Sal provavelmente teríamos défi- cits em conta comercial. Os investidores precisam compreender que petróleo é capital intensivo e a maturidade dos projetos pode ser de mais de 40 anos, portanto, para aqueles que buscam retorno imediato, devem alocar suas posições em ou- tros setores após uma revisão de plano de estratégia de investimento. Desse modo, a queda do preço das ações da Petrobras vista após as eleições na verdade nada mais é que uma situação mercado eficiente já que só fica na posição comprada quem entende a dinâmica do setor de óleo e gás, enquanto os que têm visão de curto prazo se desfazem da empresa. O objetivo da empresa (e responsabilidade do sócio majoritário que é o gover- no) é manter a perenidade do negócio, o que exige al- tos investimentos. Há um trade-off entre remuneração de curto prazo e investimentos de longo prazo, não entender isso leva a uma situação parecida com a do BNDES que é tentar entender qual seu papel. Há ainda a ideia da taxação, que é alterar os preços re- lativos e estimular o atendimento à demanda interna sem que essa precise ser muito aquecida, mas, por sua vez, co- mo exportação faz parte da demanda dos produtos da em- presa, isso implicaria natural redução do investimento. Esse ponto impõe uma dificuldade ainda maior para o processo que precisa combinar aumento da capacidade de refino (que exige importação de gás mais caro hoje e um processo de juros mais altos caso opte-se por endi- vidamento de maneira exclusiva) com aumento da capa- cidade de exportação em termos líquidos para manter a lógica da PPI, mas sem seguir os preços externos. Há que se ter em mente que os lucros elevados atuais não resultam de boa vontade do governo, exceto a par- cela que se refere às três mudanças de fórmulas de dis- tribuição de lucros e dividendos. Mas os lucros altos dos anos Bolsonaro resultam também da alta de preço de commodities, da PPI e da redução da alíquota do ICMS. Hoje o capex da Petrobras é de cerca de 8,7 bilhões de reais, bem abaixo das maiores petroleiras do mundo como Shell (19 bi), Total (16 bi), BP (12 bi) e Exxon (12 bi). A compreensão da complexidade do quadro é fun- damental para especialistas no setor, mercado e gover- no. O cenário para 2023 pode impor altas dos preços de petróleo e gás, aumento da aversão ao risco global e maior dificuldade de funding para investimentos de longo prazo, e juros elevados nos mercados interno e externo. O desafio, no entanto, segue sendo compatibi- lizar regras mais claras para os três elementos centrais apontados no texto, pois com maior espaço para aloca- ção de investimentos já se começa a desenhar o objeti- vo de alteração da política de preços que, por sua vez, precisa dar conta de não onerar o caixa da empresa e evitar distúrbios macroeconômicos como os que a regra atual traz, ao repassar toda a volatilidade dos preços do petróleo e da taxa de câmbio para o consumidor final, da refinaria à bomba ao longo da cadeia. REFERÊNCIAS https://www.investidorpetrobras.com.br/resultados-e-comunicados/ central-de-resultados/ (balanços da Petrobras) https://transparencia.petrobras.com.br/sites/default/files/Estatuto- Social-AGOE-27-Abril-2017-Portugues.pdf (estatuto da Petrobras) https://www.investidorpetrobras.com.br/acoes-dividendos-e-dividas/ dividendos-e-jcp/ (política de dividendos da Petrobras)
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=