Brasil Energia | Ed. 478 - Dezembro, 2022

Brasil Energia , nº 478, 1 de dezembro de 2022 33 Ieda Gomes Ieda Gomes é consultora independente e membro do conselho de administração de empresas internacionais de energia, infraestrutura e certificação. Escreve a cada três meses na Brasil Energia. PREÇOS DE ENERGIA E CONSEQUÊNCIAS PARA O MERCADO DE GÁS A crise energética e a volatilidade devem perdurar em 2023 e 2024, acarretando aumento das importações de GNL. Os preços de gás natural nos hubs europeus têm estado voláteis desde 2021, em decorrência da retomada da ativi- dade econômica, baixos níveis de estocagem e temperaturas muito baixas no inverno.A invasão da Ucrânia e a decisão da União Européia (UE) de reduzir em 80% as importações de gás russo e ao mesmo tempo mandatar a reposição dos esto- ques em90% exarcerbarama volatilidade, pois geraramuma corrida para importar GNL. Entretanto, somente aumentar a importação de GNL não é suficiente para reduzir a volatilidade. Primeiramente, a ca- pacidade de regaseificação na UE é de 157 bcm, o que per- mitiria atender 40% da demanda. A Turquia (34 bcm) e UK (48 bcm) podem tambémenviar GNL regaseificado para aUE, mas existe congestionamento nos gasodutos interligando es- ses países, assim como ligando a Espanha (31 bcm de capaci- dade de regaseificação) ao resto da UE. No final de outubro, chegou-se a um congestionamento de 35 navios metaneiros na costa espanhola, aguardando para descarregar. No final de outubro, o suprimento de gás russo para a Europa tinha caído de um pico de quase 500 MMm3/dia para 65 MMm3/dia. Os estoques subterrâneos atingiram 94% em novembro, mas deverão estar depletados no fi- nal do inverno europeu, que tem sido ameno até o final de novembro. Mas em 2023 não haverá gás russo para pre- encher os estoques a 90%. Face a esse cenário de incertezas a UE tem tomado me- didas que colocam em cheque, não somente a transição energética, como também a liberalização do mercado de gás europeu, até então baseado no principio de um mer- cado único, com preços definidos em hubs e a rejeição de contratos de longo prazo. Essas medidas incluem: a) o congelamento dos preços ao consumidor residencial até o final do inverno; b) o com- promisso voluntário de redução em 15% e 10% do con- sumo de gás e eletricidade de outubro/2022 a abril/2023, o que conflita com a medida de congelamento, pois sem sinal de preços altos, o consumo não tem caído; c) imposi- ção de um teto de receitas equivalente a 180 Euros/MWh para os produtores de baixo custo (renováveis, carvão, nu- clear) com os valores acima desse teto coletados pelos go- vernos para financiar o congelamento das tarifas; d) im- posição de um imposto extraordinário para produtores de eletricidade, gás, petróleo e carvão cujos lucros forem su- periores a 20% dos lucros dos últimos 4 anos. Outras medidas em estudo: a) a imposição de um teto no hub TTF se o preço exceder 275 Euros/MWh por duas sema- nas consecutivas, o que nunca ocorreu, além de ser criticado pelos consumidores, por ser muito alto; b) a criação de um comprador único para agregar a demanda de GNL na EU e redistribuir os volumes pelos diversos países, visando aumen- tar o poder de barganha dos compradores (o que bate frontal- mente contra os objetivos de transparência da concorrência); c) um mecanismo de solidariedade entre países da EU, onde países com menos acesso a suprimentos de gás podem ser abastecidos por países dispondo de infraestrutura e estoca- gem, o que poderia acarretar a suspensão do suprimento para consumidores ditos não essenciais. A Alemanha e a Holanda estão implementando constru- ção fast track de FSRUs, com três entrando em operação em 2022 e dois em 2023. França, Chipre, Itália e Finlândia tam- bém estão desenvolvendo terminais. Esses projetos, com con- tratos de arrendamento de cinco anos, deverão adicionar 50 bcm de capacidade de regaseificação até 2023, pressionando preços e disponibilidade de FSRUs para novos projetos no Bra- sil eAmérica Latina.Além disso, aAlemanha está negociando contratos de suprimento de GNL de 20 anos, com impactos no objetivo Net Zero até 2050. Embora os preços TTF tenham caído para USD 25/MMBTU emnovembro, isso ainda é muito alto para indústrias intensivas em energia. Em conclusão, a crise energética e a volatilidade devem perdurar em 2023/2024, particularmente se fizer muito frio na Europa e se os reservatórios do Sudeste brasileiro atingi- rem níveis baixos em meados do ano, acarretando aumento das importações de GNL.

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