Brasil Energia | Ed. 479 - Fevereiro, 2023
Brasil Energia , nº 479, 10 de fevereiro de 2023 25 Osmani Pontes Osmani Pontes é economista, com MBA em mercados de derivativos, opções e futuros pelo Insper e em gestão de portfólios cambiais pela EPGE/FGV. EPGE/FGV. Escreve mensalmente na Brasil Energia. OS DESAFIOS DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA E AS PERSPECTIVAS PARA OS PREÇOS DE PETRÓLEO E GÁS EM 2023 A lição que a última COP27 realizada em Sharm El Shei- kh, no Egito, em novembro de 2022 deixou para os produto- res e consumidores de combustíveis fósseis é que o tempo é curto e a necessidade de transição energética é elevada. Po- rém, há ponderações a serem feitas que se ligam a aspectos macroeconômicos e de segurança energética. A guerra na Ucrânia serviu para simultaneamente alertar para a dependência de grandes potências dos combustíveis fósseis e mostrar as dificuldades de transição.AAlemanha é fortemente dependente do gás russo bem como a França, que só é menos dependente por conta de sua matriz nuclear – apesar de não fóssil, é discutível se pode ser considerada energia limpa ou segura. No mundo corporativo cada vez é maior a exigência, por parte do financiamento bancário, que as empresas cumpram cartilhas de ESG, em que a governança ambiental é exigida. Isso se estende, inclusive, à Petrobras, que nos últimos anos se tornou uma das poucas petroleiras a não ter uma direto- ria integralmente dedicada à governança ambiental. Enxergar isso é promissor e o atual governo parece compreender a importância de relacionar essa concep- ção junto à ideia de que a área econômica, na prática, não é composta somente pelos Ministérios da Fazenda, Gestão, Planejamento e Indústria e Comércio. A Petro- bras, como empresa que responde pela maior fatia do investimento no país, não pode ser desprezada, mas não cabe a ela, sozinha, promover a transição energética. Afi- nal, é uma petroleira por excelência. Por isso, é interessante haver um trabalho integrado en- tre Minas e Energia e MeioAmbiente junto aos ministérios da área econômica, que atuam junto à Casa Civil na transforma- ção da política de preços,mantendo a regra de que há umba- lanço importador que inevitavelmente capta preços externos, mas também mantêm secretarias que pensem a transição energética como uma das secretarias deAlckmin no MDIC. Os preços de commodities exercempapel fundamental nes- se processo. A reabertura da China elevará os preços de com- modities aomesmo tempo emque os EUA observam com cau- tela os efeitos da política monetária, que vem subindo os juros mais quenaEuropa e jádá sinais na taxade inflação,mas ainda nãonomercadode trabalho,fonteda inércia inflacionáriapor lá. Caso o FED modere a alta de juros haverá um enfraqueci- mento do dólar que favorecerá os preços de petróleo e dificul- tará a descarbonização de países de balanço exportador. Isso porque a alta de commodities é generalizada e energias alter- nativas dependemde lítioe cobre,quedevemseguir aumentan- do de preço por conta do estrangulamento de cadeias globais de produção, sobretudo ligado a semicondutores e mcirochips, que encontramproblemas na oferta.A transição será cara,mais ainda com os juros dos financiamentos mais altos, e o petróleo alto é conveniente para taxas de câmbio locais de exportadores. O recente anúncio de aumento de produção da Opep deve ser visto com cautela, já que pode somente acomodar a deman- dadopetróleo,que abriuoano cotadoa86dólares obarril.Uma altadobrent elevariaopreço futurodobarril,queéopreçoàvista mais umprêmiomenos o custo de estoque, ou seja, os donos de contratos tendem a exigir mais prêmios para se livrarem dos pa- péis que no vencimento implicamrecebimentode barris caros.Os donos de barris também seguram, pois vêm o preço compensar o custo de estoque.Os ganhos se dão na rolagemdos contratos. Já os traders de gás podem ter dificuldades na compra, já que o caixa tende a diminuir com o aumento de margens, função crescente dos preços de gás. São eles que geram li- quidez ao mercado e vendem contratos futuros para contra- partes que desejam travar preço de acordo com seus pla- nejamentos financeiros. Assim, demoras na entrega desses contratos podem gerar problemas de oferta. O cenário é desafiador, pois oil and gas mais caros dificul- tam a transição energética, que é necessária, mas deve ser pensada como política de estado integrada e de longo prazo.
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