Brasil Energia | Ed. 479 - Fevereiro, 2023

Brasil Energia , nº 479, 10 de fevereiro de 2023 33 Ieda Gomes Ieda Gomes é consultora independente e membro do conselho de administração de empresas internacionais de energia, infraestrutura e certificação. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Na trilha para Net Zero em 2050, existe um consenso sobre o papel preponderante da energia renovável, em par- ticular dos chamados “low hanging fruits”, ou seja, eólicas onshore, solar fotovoltaica e, onde a geografia e clima per- mitem, da energia hidroelétrica e biomassa. Em diversos pa- íses,mais recentemente no Brasil, os investidores têm procu- rado desenvolver energia eólica offshore. Outras tecnologias, como energia maremotriz e geotermia, ainda estão em um patamar pouco avançado, em função de custos e eficiência. A rota mundial para descarbonização tem por base as seguintes premissas: eletrificação das residências (bombas a calor e fogões elétricos), veículos leves (carros elétricos), na produção de eletricidade (solar e eólica). Porém, diversos se- tores industriais enfrentam desafios para descarbonizar, em particular em indústrias que utilizam fornos e kilners, porque ainda não existem substitutos competitivos, e também por- que esses equipamentos têm uma vida útil de 20-30 anos, não sendo economicamente ou tecnicamente viável uma transição no médio prazo. No caso do transporte pesado (ônibus, trens, caminhões, navios, aviões), a eletrificação não é uma alternativa viável por questões de peso dos equipamentos, autonomia e dis- ponibilidade de pontos de recarga. Uma opção interessan- te seria o uso de biocombustíveis, particularmente os de se- gunda geração, mas não existe disponibilidade em escala mundial para atender todas as demandas, porque necessi- tam de terras cultiváveis em grande escala. Nesse contexto, o atingimento das metas de Net Zero, em particular após 2030, tem sido condicionado ao de- senvolvimento e produção de hidrogênio verde, através de eletrolisadores alimentados por energias renováveis, como uma alternativa para substituir combustíveis fósseis em segmentos “hard to abate”, por exemplo, em transportes e indústrias energo-intensivas. Apesar do uso do hidrogênio ser amplamente difundido há décadas em sua forma cinza, ou seja, através da reforma catalítica de gás natural, a sua forma verde, eletrolisação da água através de energia renovável, ainda é cara e pouco di- fundida. Atualmente o custo de produção de hidrogênio ver- de é da ordem de USD 4-6/kg, o que seria equivalente a USD 30-45/MMBtu de gás natural equivalente, enquanto que o hi- drogênio cinza hoje custa de USD 1.5 a 5-6/kg (Europa/Ásia). A partir de 2030, com a entrada em operação de diver- sos projetos, espera-se que o custo caia para USD 2/kg e, por volta de 2040, para USD 1/kg, competindo favoravelmente com o gás natural. Não obstante, existem diversos desafios para utilização em larga escala de H2 e substituição de gás natural em redes de transporte e distribuição e nos equipamentos dos consumido- res. Esses desafios referem-se à flamabilidade mais ampla do H2, suamenor densidade e custo de estocageme o impacto do menor tamanho da molécula em compressores e aços. Outros desafios referem-se ao arcabouço regulatório e à certificação de origem verde do hidrogênio produzido nos eletrolisadores. Existe ainda um debate incipiente, se o Brasil vai usar o hidrogênio no mercado interno, substituindo combustíveis fósseis, ou se vai ser simplesmente um exportador para a Europa e países asiáticos. Ou ainda um modelo híbrido de substituição local e exportações focadas. Nosso estudo para o Oxford Institute for Energy Studies, “The decarbonization of gas in the Southern Cone of Sou- th America”, identificou um potencial de 120 Mton/ano no Brasil a partir de 2050, necessitando capacidade de eletroli- sação de 1932 GW e investimentos em energias renováveis de USD 2 trilhões, gerando receitas de exportação de USD 120 bilhões/ano. Esses números podem variar, mas é inegável que o Brasil pode se transformar em uma potência de exportação de H2 verde, com políticas de incentivos e um arcabouço regulató- rio favorável que estimulem a implementação de projetos de larga escala. Os Estados Unidos estão transformando o ce- nário mundial, com o Inflation Reduction Act, dando crédi- tos de impostos de USD 3/kg. O Brasil precisa agir decisiva- mente, se quiser ganhar uma vantagem competitiva. O PAPEL DO BRASIL NA PRODUÇÃO DE HIDROGÊNIO VERDE

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