Brasil Energia | Ed. 479 - Fevereiro, 2023
Brasil Energia , nº 479, 10 de fevereiro de 2023 55 Paula Kovarsky Paula Kovarsky é engenheira com mestrado em Finanças e VP de Estratégia e Sustentabilidade da Raizen. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. CANA-DE-AÇÚCAR 10 VEZES MAIS EFICAZ QUE ENERGIA SOLAR EM POTENCIAL DE DESCARBONIZAÇÃO? A cana-de-açúcar poderá ser 10x mais eficaz que as célu- las fotovoltaicas (energia solar) empotencial de descarboniza- ção por hectare de terra no futuro, empaíses de clima tropical. Não é erro de digitação – repito, 10x! Essa tese foi tema de um artigo escrito a várias mãos e recentemente publicado na revista doMIT (Massashussets Institute ofTechnology), univer- sidade americana de primeiríssima linha que dispensa maio- res apresentações. No meu artigo anterior, “Separando o joio do trigo, ou a cana dos grãos”, falei bastante sobre o crescente reconheci- mento global do papel dos biocombustíveis na descarboni- zação, especialmente nos chamados hard-to-abate-sectors. A convicção só aumentou. Fazendo um apanhado das visões das principais consultorias sobre transição enérgica, o consu- mo de biocombustíveis quadruplica até 2050 em todos os ce- nários avaliados, dos mais agressivos aos mais conservadores na limitação de aquecimento global ou na velocidade de pe- netração da eletrificação. Mas a aposta estámuito concentra- da nos chamados waste-based-products, ou produtos reno- váveis desenvolvidos a partir de resíduos e que não ofereçam ameaça à produção de alimentos na competição pelo uso da terra.Mas ainda não tinha chegado numargumento realmen- te matador sobre esse tema. Resolvi trazer cabeças boas para levantar o nível da discus- são, buscando métricas adequadas e inteligentes de compara- ção que pudessemevidenciar de uma vez por todas o verdadei- ro potencial da cana-de-açúcar na jornada de descarbonização, alavancando seu diferencial de eficiência no uso da terra e na conversão de energia solar em carbono renovável. Começamos olhando estudos anteriores que comparavam energia produzida por hectare a partir de biocombustíveis com células solares fotovoltaicas, feitos em 2010. Os estudos foram feitos por pesquisadores europeus1 e usavam uma média de produção de biocombustível por hectare naqueles países, des- considerando as particularidades de cada cultura em cada re- gião, indicando uma vantagem de 600 vezes para os painéis solares. Bastou ajustar a produtividade“genérica”dos biocom- bustíveis em clima temperado para cana-de-açúcar em países tropicais num estudo subsequente para que essa vantagem fi- casse entre 40 e 140 vezes emtermos de energia produzida por área. Ainda que longe das nossas ambições, essas compara- ções nos abriramos olhos para um elemento-chave. A desigualdade na produção de conhecimento científico entre o norte e o sul globais faz com que a busca de soluções de descarbonização fosse pautada majoritariamente pela vi- são de países desenvolvidos de clima temperado, desconside- rando, portanto, as vantagens competitivas do clima tropical para agricultura. De forma simplificada, podemos dividir os fatores que con- tribuem para aumentar exponencialmente o potencial de des- carbonização da cana-de-açúcar por hectare no tempo em três grandes blocos que, combinados, poderão aumentar o poten- cial de descarbonização por hectare em cerca de 30 vezes. I) Produtividade agrícola: a produtividade média da cana- -de-açúcar no Brasil é da ordem de 80 toneladas por hectare, quase 10x maior que a do milho, por exemplo, seu maior com- petidor na produção de etanol. A biotecnologia tem um papel críticonoaumentodaprodutividade agrícola.Odesenvolvimen- tode soluçõesmais robustas para as variáveis ambientais,como irrigação e fertilização,pode elevar aopatamar de90 toneladas/ hectare em2030.Até 2050, outras ações com foco em seleção, melhoramento genético e biotecnologia permitirão ganhos ain- da maiores de produtividade, que poderão alcançar valores co- merciais de 148 toneladas/hectare. II) Captura de carbono biogênico (BECCS):todos os cenários de transição apontam para a necessidade de remoção de car- bono da atmosfera e, entre as alternativas disponíveis para isso, existe uma grande vantagem de custo para sistemas de BECCS para recuperação do CO2 proveniente da fermentação do eta- nol, em razão da alta concentração relativa e pureza emque es- se gás se encontra disponível no processo. Isso pode configurar um impulso adicional aos biocombustíveis, muito além da ne- cessidade de energia apenas,potencialmente levando o ciclo de vida do etanol de cana-de-açúcar ao patamar de emissões ne- gativas (é issomesmo,cada litro de etanol produzido significaria retirar CO2 da atmosfera!).
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