Brasil Energia | Ed. 479 - Fevereiro, 2023
56 Brasil Energia , nº 479, 10 de fevereiro de 2023 Paula Kovarsky é engenheira com mestrado em Finanças e VP de Estratégia e Sustentabilidade da Raizen. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paula Kovarsky III) Ampliar a gama de produtos renováveis produzidos a partir do uso da totalidade da energia contida na cana, e da utilização de todos os subprodutos ou resíduos da produção de açúcar e etanol. Essa jornada já começou com a produção de energia a partir do bagaço, com o uso mais nobre des- sa biomassa para a produção de etanol de segunda geração, com a transformação da vinhaça, subproduto da produção de etanol, em biogás e biometano, substituto perfeito do gás na- tural fóssil ou matéria prima para a produção de fertilizantes verdes, coma utilização do carbono renovável emmatéria pri- ma para a produção de bioplásticos. E no futuro com a produ- ção de biometanol, e-metanol ou simplesmente extração de hidrogênio damolécula de etanol, todos produtos líquidos ca- pazes de substituir combustíveis fosseis especialmente impor- tantes no caso dos hard-to-abate-sectors. Além disso, a par- tir do açúcar seria possível desenvolver produtos de alto valor nutricional como carne cultivada. Dessa maneira, a biotecnologia aplicada ao sistema bioe- nergia-alimentação pode criar um ciclo virtuoso: expansão de bioenergia, produção eficiente de alimentos, otimização do uso do solo (principalmente em terras degradadas de produção de gado) e descarbonização global. No caso das células fotovoltaicas, também é razoável assu- mir ganhos significativos de produtividade em função de evolu- ção tecnológica. No entanto, dados todos os investimentos es- perados em produção de energia solar e eólica em substituição ao carvão e ao gás natural, as matrizes elétricas vão se tornan- do mais limpas e o ganho marginal em termos de potencial de descarbonização, ou de substi- tuição de outras fontes mais poluentes, tende a cair muito no tempo. Sendo assim, quando comparamos ade- quadamente o efeito de descarbonização da cana-de-açúcar por hectare de terra em clima tropical, utilizando seus produtos em substitui- ção às alternativas fósseis ao efeito potencial- mente causado pela produção de energia so- lar nestamesma área, conseguimos finalmente demonstrar que a cana-de-açúcar tem poten- cial de ser uma solução 10x mais eficaz do que os painéis solares. Em tempos de releituras, ponderações e retratações de ver- sões unilaterais da História, nos mais diversos campos, me pro- ponho a trazer essa provocação.Historicamente, há uma discre- pância enorme na produção de conteúdo científico entre o tem- perado e desenvolvido hemisférioNorte e as zonas tropicais em desenvolvimento do hemisfério Sul. Na prática, esse viés acaba negligenciando, nas rodas internacionais de soluções de descar- bonização, o potencial gigantesco da produção combinada de biocombustíveis ealimentos emterras tropicais,comdiferenciais competitivos imbatíveis no curto,médio e longo prazos. Essa tese já está totalmente provada? Não, existem inúme- ros desafios tecnológicos e econômicos. Mas olhar para todo esse potencial de contribuição para o desafio global de descar- bonização compremissas incompletas ou equivocadas não nos parece ser o caminho mais promissor para torná-las uma reali- dade daqui a 20 ou 30 anos.Arriscaria dizer que, emmuitos as- pectos, são caminhosmais realistas e concretos do que simples- mente se declarar Net-Zero em2050! Mateus Lopes, head de Transição Enegética, eAndreValen- te, head de Sustentabilidade, e respectivos times, vocês brilha- ram, tangibilizando ideias que pareciam apenas teorias incon- formistas. O artigo completo está disponível em https://www. mitsloanreview.com.br/post/como-os-paises-tropicais-podem- -acelerar-seu-protagonismo-na-economia-net 1 Hartmut Michel – The nonsense of biofuels. Harmut é premio Nobel e descobriu a estruturada das proteínas da fotossíntese.
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