Brasil Energia | Ed. 480 - Abril, 2023

Brasil Energia , nº 480, 17 de abril de 2023 15 Heitor Paiva Heitor Paiva é analista da Hedgepoint Global Markets. Atua com inteligência de mercado e pesquisa no mercado de câmbio e commodities, principalmente através de análise fundamentalista aplicada às commodities energéticas. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses A mudança climática é um problema real sobre o qual a humanidade deve se debruçar. Isso significa incumbir a nós que busquemos por formas susten- táveis de se garantir o crescimento econômico. É um consenso de que as soluções mais usuais encontra- das ao problema concernem ao desinvestimento fós- sil, sobretudo das companhias ligadas à extração e produção de óleo e gás. Por mais que o desinvestimento desta indústria pa- reça se justificar pelo objetivo de um futuro melhor a todos, existem muitos questionamentos a respeito de sua real eficácia. A economia global atravessa um momento histórico no qual, mesmo após o maior choque de juros dos últi- mos 40 anos, a inflação continua extremamente forte. Importante lembrar que um dos fatores que desenca- dearam esta alta nos índices de preços mundialmente se deu por problemas relacionados à baixa oferta de petróleo no mercado internacional entre 2021 e 2022. Por isso, pode-se dizer que o desinvestimento fóssil contribui à inflação. Para que isso não ocorra, é neces- sário o aparecimento de outras fontes energéticas, obri- gatoriamente confiáveis e competitivas em preço. Isso está ocorrendo? Atentemo-nos ao setor de locomoção veicular, que corresponde à quase metade do consumo global de combustíveis refinados. Parece haver um consenso, principalmente difundi- do pelas nações desenvolvidas, de que o futuro da loco- moção humana passa obrigatoriamente pelos veículos elétricos – sejam eles os híbridos convencionais, plu- gin, à bateria ou a célula de combustível. O que todos eles têm em comum? O intenso uso de metais raros e condutores, como o lítio e o cobre, escassos e de oferta controlada por poucas nações. Não há dúvidas de que os suprimentos destes metais têm de ser aumentados, mas é razoável pre- sumir que será uma tarefa demorada e muito custo- sa. Novas minas de cobre, por exemplo, demandam 16 anos para que se tornem ativas, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA). Aliado a esta conjuntura, está o fato de que muitas dessas commodities metálicas se encontram em países on- de a logística é deficitária e a instabilidade política recorrente. Válido lembrar que os custos de endivi- damento estão extremamente elevados globalmente em função do aperto monetário global recente, o que desincentiva alocação em capex no presente por par- te das mineradoras. A questão, logo, é o que fazer com o óleo e gás nes- te meio tempo em que a economia se adequa a essas novas formas de uso energético. Supondo que elas se- jam viáveis futuramente, e não apenas um “moda” do curto prazo. É o caso de diminuir a oferta de óleo e gás em um momento em que ainda há dúvidas se existe disponibilidade de metais o suficiente para a eletrifica- ção da frota mundial? Parece que não. Portanto, a redução da oferta de óleo e gás, também forçada por meio de restrições a empréstimos das insti- tuições financeiras, pode não ser uma estratégia produ- tiva. Isso porque ela pode agravar a escassez fóssil, ge- rando preços estruturalmente mais altos de combustí- veis e, portanto, inflação. Precisamos de razão e menos emoção neste debate, porque não se constrói uma casa começando pelo telhado. DESINVESTIMENTO FÓSSIL: NÃO SE CONSTRÓI UMA CASA PELO TELHADO

RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=