Brasil Energia | Ed. 481 - Junho, 2023

Brasil Energia, nº 481, 13 de junho de 2023 39 Paulo Cunha é sócio-diretor da Sempi Consultoria e consultor sênior da Fundação Getulio Vargas. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paulo Cunha Grandes civilizações marcaram a transição da humanidade para a fase histórica. Todas nas- ceram em torno de seus rios. As revoluções ur- banas responsáveis pela fixação das socieda- des, superando o nomadismo coletor, foram su- portadas pela abundância de recursos hídricos. Eles foram responsáveis pelo surgimento da agricultura e todo o posterior avanço civilizató- rio. Assim, foi na Mesopotâmia, entre os rios Ti- gre e Eufrates que nasceu a civilização ociden- tal. No vale do rio Amarelo acredita-se ter se ori- ginado o povo chinês. No nordeste da África, o Nilo permitiu o fantástico desenvolvimento da ci- vilização egípcia. A antiquíssima sociedade hin- du floresceu a partir dos inúmeros povoamen- tos ao longo do rio Indo, que a nominou. Fazendo um salto das origens para o futuro da civilização, os recursos hídricos posicionam- -se como fiadores da sustentabilidade socioam- biental. Isso porque a hidreletricidade decorren- te desses aproveitamentos é capaz de prover de modo destacado as condições que permi- tem o avanço massivo de fontes de energia de baixo carbono. Pela óbvia dependência locacio- nal dos cursos d’água, não será em todo o pla- neta que a hidreletricidade poderá suportar o crescimento das fontes renováveis não-contro- láveis. Onde é possível, no entanto, não há ra- zão para que esse benefício não seja aproveita- do em seu máximo potencial. Recentemente foi divulgada a Declaração de San Jose Sobre Energia Hidrelétrica Sustentável. Essa manifestação documenta os compromis- sos assumidos pela comunidade internacional representada no Hydropower Sustainability Cou- ncil, entidade multisetorial que reúne diferentes partes interessadas em energia hidrelétrica. Sua missão é promover o aprimoramento da hidrele- tricidade, construindo conhecimento, incentivan- do e incorporando práticas sustentáveis. A decla- ração traz os princípios a seremobservados para o aproveitamento sustentável da hidreletricidade, explorando suasmúltiplas dimensões. Apresenta também recomendações para entidades e deci- sores governamentais responsáveis por gestão de energia e manejos de água, com vistas a per- seguir uma transição energética limpa e segura. Não é novidade que a integração sustentável da hidroeletricidade no planejamento e na ges- tão das bacias hidrográficas envolve compensa- ções complexas, na busca de equilíbrio entre a produção de energia e todos os usos da água, priorizando-se a preservação socioambiental. Nesse sentido, na medida em que a urgência na descarbonização dos setores energéticos im- põe a crescente participação de fontes não-con- troláveis nos sistemas elétricos, como a eólica e a solar, aumentam dramaticamente as necessi- dades de flexibilidade operativa e de armazena- mento de energia em grandes escalas de volu- me e duração. Contribuir na otimização do aten- dimento a essas necessidades é o desafio a que se submete a Energia Hidrelétrica Sustentável. Culminando um esforço de autorregulamenta- ção, foi publicada neste ano a Hydropower Sus- tainability Standard, um sistema voltado a garantir a conformidade dos empreendimentos de hidre- letricidade. Ele apresenta os requisitos de desem- penho e uma metodologia de certificação da sus- tentabilidade hidrelétrica. Detalha as etapas, defi- nindo também o credenciamanto dos interessa- dos e a governança do processo. Inclui ainda as ferramentas de avaliação emodelos de relatórios. Essa sistemática, que foca no ciclode vida integral dos projetos, encontra-se em linha com as diretiri- zes socioambientais das principais entidades mul- tilaterais de financiamento de infraestrutura. Essa norma deve ser revisada ordinariamente a cada cinco anos. Sugestões de aprimoramento, entre- tanto, podem a qualquer momento ser encami- nhadas. Fluxos e reservação; recursos hídricos e energia. É disso que a história nos fala quando nar- ra de onde viemos. Não há razão para duvidar de que também disso se tratará aonde formos. Hidroeletricidade Sustentável

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