Brasil Energia | Ed. 481 - Junho, 2023
Brasil Energia, nº 481, 13 de junho de 2023 49 Paula Kovarsky, engenheira mecânica e de produção, com MBA em finanças corporativas e mais de 20 anos de experiência no setor de energia, é VP na Raízen. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paula Kovarsky Inventei esse nome outro dia. A ideia não é necessariamente original, apesar de ain- da ser comum explicar para algum acionis- ta/investidor que cana-de-açúcar e desma- tamento são dois assuntos com correlação negativa nos últimos 20 anos. Não só te- mos como comprovar isso, como seria pos- sível pensar em iniciativas de recuperação de áreas degradadas plantando cana-de- -açúcar, com benefícios de captura líquida de carbono, desenvolvimento socioeconô- mico e produção de bioenergia sem com- petir com alimentos pelo uso da terra. No estudo recente publicado na revista Land (plataforma global especializada em assuntos sobre o uso da terra), Embrapa, Unicamp e Agroicone demonstram que, no período de 2000 a 2020, as áreas cultiva- das com cana no Brasil não só não emiti- ram carbono, como removeram 196 MtCO 2 através de melhorias no uso da terra e da implantação da colheita mecanizada, subs- tituindo as queimadas. Isso é o equivalente a plantar 1,4 bilhões de árvores, o que ocu- paria uma área superior a 1 milhão de cam- pos de futebol ou 80x a cidade de Paris co- berta por vegetação florestal[1]! Nos mes- mos 20 anos, 98,4% do avanço da cana não teve qualquer impacto em vegetação na- tural. Ou seja, praticamente 25% das áreas cultivadas já eram cana nos anos 2000 e assim elas permaneceram. Já os outros 6,1 milhões de hectares vieram de conversão de áreas que anteriormente eram pasta- gens ou áreas já utilizadas para agricultura. Em outras palavras, não só a cultura da cana no Brasil não tem impacto em vegeta- ção nativa via mudança direta do solo (co- nhecido em inglês como Land Use Change – LUC), como tem impacto positivo na cap- tura de carbono. Além disso, o estudo iden- tificou que a área total de florestas nessas propriedades agrícolas aumentou, aderindo a um código florestal rigoroso com metas de restauro de áreas de preservação. Isso é recuperação de florestas somada à des- carbonização e ao desenvolvimento local. Todas essas informações precisam ser entendidas e reconhecidas mundo afora, especialmente por mercados exigentes, como EUA ou Europa, e certificações inter- nacionais, como a Bonsucro ou ISCC[2]. Es- ses atores carecem de dados confiáveis e atuais para estimar as emissões de ciclo de vida de cada produto. Por isso acabam usando abordagens conservadoras e gené- ricas que penalizam os produtos em suas pegadas de carbono. O mundo precisa for- mar conhecimento sobre quais culturas são mais eficazes em promover a economia verde sem pressionar os serviços ecossis- têmicos, no caso a cana-de-açúcar brasilei- ra e todos os seus derivados. Enquanto isso, as projeções sobre de- manda por biocombustíveis globalmente (especialmente nos setores de difícil eletri- ficação, como aviação e transporte maríti- mo ou químicos) só aumentam. Compilan- do projeções de consultorias renomadas e empresas, estima-se que a demanda deva atingir certa de 240 milhões de toneladas em 2030 e 390 milhões em 2050. Se pen- sarmos por exemplo em atender algo co- mo 25% dos mandatos globais para SAF (sustainable aviation fuel) em 2030 com tecnologia de produção a partir do etanol (Alcohol-to-Jet ou AtJ), a demanda adicio- nal pelo combustível seria de cerca de 9 bilhões de litros, 1/3 da produção brasilei- ra. Já em 2050, estima-se que aproximada- mente 50% da demanda por biocombustí- ReflorestamentoEnergético?
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