Brasil Energia | Ed. 481 - Junho, 2023
50 Brasil Energia, nº 481, 13 de junho de 2023 Continuação Paula Kovarsky veis seja SAF. Os mesmos 25% de AtJ gera- riam uma demanda adicional de 100 bilhões de litros. Em contrapartida, as mesmas es- timativas apontam para disponibilidade de outras possíveis matérias-primas que não afetem produção de alimentos (resíduos ou waste) em algo como 30 milhões de tone- ladas. Não é à toa que a Agência Internacio- nal de Energia (International Energy Agency – IEA, em inglês) demonstra preocupação com disponibilidade de matéria prima para produção de biocombustíveis. Voltemos ao Brasil, que tem hoje cerca de 150 milhões de hectares de área utiliza- da para pastagem[3] dos quais quase 1/3 estão degradadas[4] e poderiam ser recu- peradas para agricultura. Se essa recupera- ção fosse feita através do plantio de cana, explorando seu potencial de forma otimi- zada, com produção de etanol de primeira e segunda gerações e biogás, o Brasil po- deria aumentar sua produção de etanol em cerca de 200 bilhões de litros, quase 7x a produção atual e mais de 2x a produção do Brasil e dos EUA somadas, de muito longe os dois maiores produtores da commodity. Mais um detalhe: apenas o etanol de cana- -de-açúcar se qualifica hoje como matéria prima para a produção de SAF, de acordo com as regras estabelecidas pelo governo americano para concessão de incentivos a descarbonização (IRA)[5]. Sigo firme na minha jornada de desmis- tificar as falsas crenças relacionadas aos biocombustíveis e ao seu papel na jornada global de descarbonização. Se a conscien- tização pelo lado da demanda parece ter avançado bem, temos muito trabalho ain- da na educação e no entendimento sobre as diferenças relevantes entre os chama- dos crop-based products (feitos a partir de culturas agrícolas) no que se refere a qual- quer possível relação com desmatamen- to, potencial de restauração do solo espe- cialmente em áreas degradadas, e captura de carbono. E, no caso específico na nos- sa cana, potencial de expandir substancial- mente o portfólio de produtos renováveis (E2G, biogás/biometano, SAF, biometanol, amônia verde, químicos etc.) aumentando a produtividade agrícola e explorando todo o potencial energético dessa planta, sem re- tirar seu protagonismo na produção de açú- car e sem plantar um hectare adicional de cana fora das áreas degradadas. Reflorestamento energético? Melhor: ener- gético e alimentar! No cenário de escassez de recursos e necessidade de descarboniza- ção, me parecia difícil acreditar que alguma solução poderia promover, simultaneamente, produção de energia limpa, alimento e res- tauro de ecossistemas. Parecia! ______________________________________________ [1] Baseado nos fatores de conversão 0,14 tCO2/árvore e 1.667 árvores/ha (fonte: SOS Mata Atlântica). Referência das áreas equivalentes: Cam- po de futebol oficial de 100x70m e Cidade de Paris com 105 km 2 . [2] Bonsucro e ISCC são exemplos de padrões independentes que certificam, por meio de crité- rios globalmente reconhecidos, que certo produto foi produzido respeitando princípios de sustentabi- lidade [3] MapBiomas – Mapa de Cobertura e Uso da Terra do Brasil, 2021 [4] MapBiomas – Mapa de Cobertura e Uso da Terra do Brasil, 2021 [5] https://valor.globo.com/agronegocios/noti- cia/2023/02/08/bioquerosene-de-aviacao-nova- -fronteira-para-o-etanol-de-cana.ghtml
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