Brasil Energia | Ed. 481 - Junho, 2023
Brasil Energia, nº 481, 13 de junho de 2023 67 Telmo Ghiorzi, doutor em políticas públicas e mestre em engenharia. é secretário executivo da Abespetro. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Telmo Ghiorzi Em 1859, teve início a chamada Era do Petró- leo. Após a introdução do petróleo, os energéti- cosmais comuns até então passarampor mudan- ças expressivas em seu consumo. Entre 1860 e 2022, o consumo de carvão aumentou cerca de 40 vezes. O consumo de lenha dobrou. Ao contrário do que parecia intuitivo, a introdu- ção de uma nova fonte de energia não provocou redução do consumo das fontes até então domi- nantes. A grande novidade não fora a introdução do petróleo. Fora o avanço rápido e amplo da Re- volução Industrial, que começara na Inglaterra em meados do século XVIII. E que, emmeados do Sé- culo XIX, já estava incorporada nos EUA, em ou- tros países da Europa e no Japão. O petróleo acelerou ainda mais um processo que crescia a taxas exponenciais. A fartura mate- rial promovida pela Revolução Industrial era abso- lutamente inédita e distinta do que o mundo até então experimentara. A transição energética pela qual passa omundo hoje tem raízes diferentes daquelas do início da Era do Petróleo, que foi motivada pela busca de substi- tuto para óleo de baleia, então usado para iluminar casas. A transição atual émuitomais ambiciosa. Trata-se, agora, deevitar uma possível catástro- fe ambiental, decorrente do excesso de emissão de gases do efeito estufa na atmosfera. Os com- bustíveis fósseis têm enorme peso nestas emis- sões e, portanto, é preciso reduzir seu consumo. Contudo, há diversas dimensões e desafios en- trelaçados para a missão que o mundo enfrenta. Um deles diz respeito a questões sociais. A far- tura material que o uso de petróleo promoveu é ir- reversível. É difícil, se não impossível, supor que pessoas aceitem abdicar do conforto e outros be- nefícios decorrentes da fartura de energia em no- me de umconceito complexo e distante como “re- duzir emissões”. Ainda há milhões de pessoas no mundo consumindo menos energia do que seria minimamente digno. O consumo mundial de ener- gia tende a continuar crescendo, porque a popula- ção tende a aumentar e porque mais pessoas au- mentarão seu consumo individual de energia. A esse fato, deve-se acrescentar que as fontes fósseis representam cerca de 80% da matriz mun- dial. Para substituí-las, ainda há muito a ser feito em termos de desenvolvimento de outras fontes. Ana- logamente ao que ocorreu com o carvão, a introdu- ção de fontes renováveis não necessariamente vai causar redução relevantedoconsumode fósseis. O mundo ainda vai conviver comopetróleopor muitas emuitas décadas. Talvez por muitos séculos. Neste contexto, o Brasil pode despontar como grande produtor e exportador de petróleo. Além de razões positivas de ordempolítica, regulatória e tec- nológica, o país dispõe de muitas reservas a serem exploradas, entreelasaqueseestimaexistir naMar- gemEquatorial. A recente (e recorrente) negativa do Ibama emaprovar o início de campanha exploratória na região é deletéria emvários sentidos. Ela atrasa ganhos sociais com fartura de ener- gia e de empregos decorrentes dos investimen- tos em exploração e produção. Ela atrasa o au- mento de arrecadação e, portanto, o desenvol- vimento socioeconômico da região. Ela atrasa e frustra novamente a possibilidade de o setor brasi- leiro de óleo e gás exercer seu potencial de legar ao país estabilidade e imunidade às flutuações que a transição energética vai provocar na econo- mia do mundo e, por conseguinte, do Brasil. Com efeito, é o setor de petróleo que vai finan- ciar parte expressiva dos investimentos necessá- rios ao desenvolvimento das inovações que vão pavimentar a transição energética. Entre outras inovações estão, por exemplo, os avanços das tecnologias para captura, uso e armazenamento de dióxido de carbono (CCUS, na sigla em inglês) em reservatórios de petróleo. Nãohá transiçãoenergéticaviável sema indústria de petróleo e o atraso no licenciamento daMargem Equatorial é uma grande restrição a este processo. Transição energética, Margem Equatorial e o legado do setor energético
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