Brasil Energia, nº 482, 15 de agosto de 2023 35 Nesta entrevista, Suzana Kahn fala sobre o desafio da transição energética e das mudanças climáticas, o papel do gás natural no Brasil, a discussão sobre a Margem Equatorial e a estratégia de atuação da Petrobras. Segundo ela, a transição energética deve levar em conta as desigualdades globais para ser justa e inclusiva, assim como o Brasil deve considerar as assimetrias regionais para explorar todo o potencial de uma “economia tropical”. A transição energética atual é a mais complexa da história da humanidade, certamente. Ao contrário das anteriores, determinadas pela eficiência econômica, esta é motivada pelo clima. No meio disso tudo, a pandemia e, sobretudo, a guerra, agravaram o desafio da crise climática, já que as crises energética, alimentar e geopolítica se somaram a ela. Diante disso, como conciliar a transição energética com as demandas sociais? Ainda: como o Brasil está inserido dentro do cenário global, tendo em vista o resgate da política ambiental? Bem, vou começar pelo Brasil. É evidente que o país possui muitas vantagens. Acho, inclusive, que ele é privilegiado no que diz respeito não apenas à disponibilidade de recursos renováveis, mas sobretudo de recursos naturais, o que inclui as fontes convencionais, como o petróleo. A meu ver, portanto, estamos muito bem posicionados, especialmente em relação à composição da nossa matriz elétrica, altamente renovável. Em relação a isso, não há dúvida de que estamos a frente de vários outros países, que não dispõem dessa oferta tão abundante e diversificada. O grande desafio, contudo, permanece sobre o aspecto econômico, tendo em vista a desigualdade crônica. Por ser muito grande, o país tem várias regiões em estágios assimétricos de desenvolvimento, índice de desenvolvimento humano (IDH) etc. Dito isto, o desafio do Brasil está muito mais ligado a uma transição energética justa do que a transição energética por si. Como país, somos um exemplo em termos de energia renovável para o resto do mundo. E temos um potencial ainda monumental, que usamos ainda muito pouco. Na geração eólica e solar estamos indo bem, porém acompanhando o movimento que ocorre no mundo. É uma questão muito complicada, não podemos dissociar a questão ambiental do desenvolvimento socioeconômico regional. Se no Amapá, por exemplo, não houver desenvolvimento para a região por conta da renda proveniente do petróleo, não se pode deixar o estado empobrecido, embora seja improvável que a exploração vá enriquecer a sua população. Afinal, o objetivo deve ser o desenvolvimento e melhoria de qualidade de vida da população, se isto não for garantido, não adianta nada. Desse modo, você vai ter um risco ambiental sem nenhum benefício àquela população que está exposta ao risco. Por outro lado, se a decisão política não for prosseguir com a exploração petrolífera, outra alternativa terá de ser apresentada. A questão da transição justa é muito importante. Você não pode querer que uma determinada região ou parte da sociedade fique ou sem acesso à energia ou tendo que pagar caríssimo por uma determinada energia por ela ser de uma tecnologia mais avançada. Essas coisas têm que caminhar juntas. Você tem que ter uma lógica econômica, você tem que olhar a sociedade que precisa se desenvolver, que precisa da energia. O pior cenário é não ter energia. A sua análise remete àquela frase de Indira Gandhi, proferida na primeira Conferência da Onu sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em 1972: “o pior tipo de poluição que existe é a pobreza”. Ho-
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